RESENHA: A Sombra e o Abismo – A pústula e o cosmos: Algum Poema, de Carlos Nunes
É
raro, na produção literária contemporânea, encontrar um autor que consiga
transitar com tamanha desenvoltura entre o íntimo e o universal, entre a
confissão visceral e a indagação metafísica. Carlos Nunes, em Algum Poema,
consegue o feito notável de resgatar a angústia do Ultrarromantismo sem cair no
mero pastiche, utilizando a chama do século XIX para iluminar as fissuras do
século XXI. O livro é um mergulho num "eu" dilacerado, mas que busca
incessantemente um "outro" — seja ele a amada, a morte ou a própria
consciência.
A
influência de Álvares de Azevedo é a mais evidente e bem trabalhada por Nunes.
Assim como o autor da Lira dos Vinte Anos, o poeta contemporâneo cultiva
a arte do tédio sublime e da noite interior. A tese de doutorado de Alexandre
de Melo Andrade lembra que, na tradição romântica, "o Eu transcende a
Natureza física", estabelecendo com ela "um entendimento interno”. Em
Nunes, no entanto, essa transcendência é constantemente frustrada.
Enquanto
Azevedo buscava na natureza o refúgio para o "mal do século" — a
sombra das árvores, o murmúrio do vento —, Nunes parece estar preso em um
quarto escuro, onde a natureza é apenas uma lembrança distante ou uma imagem na
tela. Onde Azevedo ironizava o amor e a morte com uma morbidez quase jovial
(pense em "Se eu morresse amanhã"), Nunes encara o vazio com uma
lucidez que dói. Se há ironia em Algum Poema, ela é cínica,
desencantada, fruto de um mundo que já viu todas as promessas românticas
falharem. O Ultrarromantismo de Nunes é o de um sobrevivente: a chama ainda
arde, mas já não ilumina o caminho; apenas queima as mãos.
Entretanto,
a comparação mais instigante, e talvez a mais precisa para definir a
originalidade de Nunes, é com Augusto dos Anjos. Se Azevedo fornece o tom
emocional da obra, é Augusto dos Anjos quem empresta a "cara" para os
monstros que habitam os versos.
Carlos
Nunes compartilha com o autor de Eu a obsessão pelo cientificismo e pela
degradação da matéria. Em Augusto dos Anjos, o vocabulário biológico e médico
não é decorativo; ele serve para expor a "coisificação" do homem,
como bem analisa Carlos Romero: "o seu léxico científico não se encontra
na sua poesia como palavras aleatórias ou como mero adorno, cosmética
superficial, mas com um propósito definido de entender a vida, na sua forma
material”. Nunes opera de forma semelhante.
Em
Algum Poema, o corpo não é apenas um templo romântico em ruínas; ele é
um laboratório de falhas. As metáforas biológicas e químicas emergem nos
momentos de maior tensão lírica, transformando a dor emocional em um fenômeno
físico quase clínico. A grande diferença entre os dois é a direção do olhar.
Augusto dos Anjos olhava para o universo e via a "coalescência" dos
átomos, a certeza da decomposição cósmica. Nunes, por sua vez, parece ter
internalizado essa visão de horror metafísico e a aplica às relações humanas e
à solidão digital. Ele não canta a "podridão" do mundo; ele filma em slow
motion a explosão de uma célula cancerosa dentro do peito.
Nunes
resolve um problema que assombra a poesia contemporânea: como falar de
sentimentos universais (solidão, amor, morte) sem recorrer aos clichês do
passado, mas também sem abraçar uma frieza conceitual que anula a emoção? Algum
Poema é a resposta. Ele pega o "tédio" de Azevedo e o transforma
em burnout; pega o "verme" de Augusto dos Anjos e o transforma
em algoritmo.
O
eu-lírico de Algum Poema é um organismo ferido que, mesmo cego e
dilacerado, ainda se move em direção a um clarão. Mesmo ciente da escuridão
cósmica (herdada de Augusto dos Anjos) e da fragilidade do corpo (herdada de
Azevedo), o poema insiste em existir.
Em
suma, Algum Poema é uma obra corajosa. Carlos Nunes não se contenta em
imitar os gigantes; ele os convoca para um duelo no território pantanoso do
presente. O resultado é uma poesia que fere, que incomoda, mas que, acima de
tudo, respira — mesmo que com a asfixia característica de quem acabou de
emergir de um quarto escuro e se deparou com a luz crua da realidade.



.jpg)



