RESENHA - As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi : Um Atalho Fascinante, mas riscante
Rodrigo
Leonardi escolhe um ponto de partida magneticamente sedutor: reconstruir, em
contos, as últimas horas de vida de ícones que morreram aos 27 anos,
integrantes do chamado “Clube dos 27”, mas também outros. A premissa é forte e
imediatamente evoca questões universais sobre mito, destino, autodestruição,
genialidade truncada e o peso da fama. O risco, porém, é enorme: como abordar
figuras tão massivamente mitificadas (como Jim Morrison, Kurt Cobain, Janis Joplin,
Amy Winehouse, Jimi Hendrix, entre outros) sem cair na hagiografia, no clichê
ou na pura especulação sensacionalista? Leonardi navega bem por essas águas
turbulentas e não sucumbe às suas tentações.
Leonardi
não opta por uma reconstituição jornalística ou biográfica. Seu projeto é
literário e intimista. Os contos são mergulhos subjetivos, aproximações
psicológicas e atmosféricas dos momentos que antecedem a morte dessas
personalidades. O estilo tende ao lírico, às vezes barroco, buscando capturar
não os fatos brutos, mas os estados de espírito – a angústia, a névoa das
drogas, a solidão em meio ao caos, o cansaço extremo, o diálogo interno
torturado.
Esse
é um dos acertos do livro: deslocar o foco do evento espetacular da morte para
a experiência interior (ficcionalizada) que a precede. Em alguns momentos, a
representação da dissonância entre a pessoa e o personagem público, entre a dor
íntima e o palco global, é tocante e aguda. Em outros, a crueza do vício e a
sombra da mídia são combinadas de forma eficaz.
As
Últimas Horas cumpre o nobre serviço de (tentar) humanizar
figuras que se tornaram mais símbolos do que pessoas. Leonardi os mostra
frágeis, assustados, confusos, muitas vezes à deriva. A linguagem, carregada de
imagens sensoriais (som, textura, luz embaçada), cria claustros existenciais
que transmitem o desespero e o esgotamento. O conto sobre Jim Morrison, por
exemplo, evoca mais o filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que
o animal de palco, o que é uma escolha interessante.
O livro, porém, não escapa ileso de suas próprias armadilhas. O principal problema é a tendência a recorrer a lugares-comuns sobre “o preço da fama” e “o artista torturado”. Há um risco de romantização da autodestruição, ainda que não explícita, mas latente na escolha de um foco tão exclusivo no momento da queda. Há também certa uniformidade de tom. Apesar de tentar vozes e perspectivas diferentes (alguns contos são em primeira pessoa, outros em terceira; alguns mais oníricos, outros mais realistas), muitas das narrativas convergem para uma mesma sensação de naufrágio e dissolução. A morte aos 27 torna-se, paradoxalmente, um fator unificador que ameaça apagar as individualidades que o livro pretende explorar.
É
inevitável questionar: até onde podemos ou devemos imaginar os últimos momentos
de uma pessoa real? Leonardi parece consciente desse dilema e evita o óbvio,
tratando seus personagens com dignidade e evitando exploração mórbida direta. O
livro pede um pacto de leitura claro (para relembrar de Umberto Eco): isto é ficção
inspirada em realidade, não biografia.
As
Últimas Horas é um livro ambicioso e corajoso. Rodrigo
Leonardi encara o desafio de dar forma literária a um fascínio cultural
contemporâneo. Se nem todos os contos atingem a mesma força, e se a obra por
vezes tropeça na grandiosidade de seu próprio tema, ela oferece momentos de
verdadeira potência narrativa e reflexão.
É
mais bem-sucedido como um estudo sobre o fim – sobre o colapso físico e
psicológico – do que como um conjunto de retratos definitivos das
personalidades envolvidas. Funciona como um memento mori para ídolos que
pareciam imortais, lembrando-nos de sua humanidade radical e trágica.
Recomendado
As últimas Horas para quem se interessa por literatura contemporânea,
pelo mito do “Clube dos 27” e por narrativas que exploram os limites entre a
persona pública e o self privado, desde que o leitor esteja disposto a perdoar
certas recaídas no tom excessivamente lírico e a aceitar o caráter conjectural
do projeto.
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