quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

RESENHA - A Humanização do Mito: As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi e a luta por uma representação séria no cotidiano da morte

 




Rodrigo Leonardi, em As Últimas Horas, propõe um exercício literário de alto risco e fascínio: reconstruir, através da ficção, os momentos finais de ícones da cultura pop. Ao eleger figuras como Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse e outros, o autor não busca a biografia factual ou o sensacionalismo jornalístico. Seu projeto é mais ambicioso e essencialmente literário — ele tenta humanizar o mito, mergulhando na subjetividade, na solidão e na degradação que antecedem o desfecho trágico. É justamente nesse ponto que a obra de Leonardi encontra um diálogo profundo — ainda que possivelmente não intencional — com as questões fundamentais levantadas por Erich Auerbach em sua obra-prima, Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental.

A premissa do livro é magneticamente sedutora. Leonardi desloca o foco do espetáculo da morte — tão explorado pela mídia e pelo imaginário popular — para a experiência interior que a precede. São contos que funcionam como mergulhos subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas. O estilo do autor, frequentemente lírico e sensorial, busca capturar não os fatos, mas os estados de espírito: a angústia, a névoa química das drogas, o cansaço extremo de existir sob o peso da fama, o diálogo interno torturado entre a pessoa e o personagem público.

Essa abordagem é o grande acerto do livro. Ao tentar narrar a "dissonância" entre a dor íntima e o palco global, Leonardi confere dignidade a essas figuras, tratando-as não como símbolos, mas como pessoas frágeis, confusas e à deriva. O leitor é convidado a um pacto de ficção que permite a empatia, afastando-se da mera curiosidade mórbida.

Para compreender a magnitude e as armadilhas desse projeto, a teoria de Erich Auerbach é uma ferramenta indispensável. Em Mimesis, Auerbach traça uma história da representação do real no ocidente, partindo de uma dicotomia fundamental. De um lado, o estilo homérico (presente na Odisseia), que trata os fenômenos de forma totalmente externalizada, uniforme e sem profundidades, mantendo tudo em um "primeiro plano" brilhante e legendário. De outro, o estilo bíblico (presente no Antigo Testamento), que é repleto de "segundos planos", sugestões do não-dito, multiplicidade de significados e, crucialmente, a representação séria de figuras cotidianas e problemáticas.

Para Auerbach, a grande virada na literatura ocidental é a ruptura com a antiga "doutrina dos níveis de estilo", que reservava o tratamento trágico e sério apenas às classes altas e aos grandes feitos, relegando o povo e o cotidiano ao estilo cômico ou baixo. A tradição bíblica, ao narrar o drama de pessoas comuns diante do divino, e posteriormente a literatura cristã, com o modelo da sublimitas e humilitas de Cristo, criaram as bases para o que Auerbach chama de "realismo moderno": a capacidade de tratar o cotidiano, o popular e o trivial com a mais profunda seriedade e tragédia . É essa tradição que permite a Flaubert, Stendhal, Proust e Woolf a imersão na psicologia de personagens comuns, revelando a historicidade e a profundidade de suas existências.

É sob essa luz que As Últimas Horas deve ser lido. Leonardi enfrenta um desafio que é o reverso da moeda do processo histórico descrito por Auerbach. Ele não precisa elevar o comum ao trágico; seu ponto de partida é o "herói" trágico, a figura elevada pelo mito pop. Sua tarefa é fazê-la descer ao solo da condição humana, revelar o "segundo plano" que a tradição homérica da fama insiste em ocultar.

Nesse sentido, a obra é profundamente auerbachiana. Ao focar no momento de colapso — na solidão de um quarto de hotel, no delírio de uma overdose, no cansaço extremo — Leonardi aplica o "tratamento sério" não a um rei ou guerreiro, mas a roqueiros e estrelas. Ele os insere no que Auerbach chamaria de "realismo profundo", preocupado com o "devir histórico" e a complexidade psicológica do indivíduo .

O conto sobre Jim Morrison, por exemplo, ao evocá-lo mais como "filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de palco" , é uma tentativa de escavar as camadas soterradas pelo mito. É a busca pela verdade interior, pela "multiplicidade de significados" que a imagem pública unidimensional tende a achatar. A linguagem lírica e sensorial de Leonardi, carregada de imagens de "textura" e "luz embaçada”, funciona como uma ferramenta para criar essa atmosfera de "fundo", esse espaço de sugestão onde o drama íntimo pode, finalmente, ser narrado com a seriedade que a tragédia humana exige.

Se, por um lado, a obra dialoga com a conquista do realismo moderno, por outro, ela expõe as fraturas e os limites desse processo. O principal risco apontado pela crítica — e sentido na leitura — é a tendência a recorrer a "lugares-comuns sobre o preço da fama e o artista torturado". Aqui, a representação ameaça desabar sobre si mesma.

Quando a narrativa escorrega para o clichê, ela abandona a complexidade bíblica e retorna, ainda que brevemente, a uma forma de mitificação. O "artista torturado" é, ele próprio, um mito moderno, um novo nível de estilo que uniformiza a experiência individual de Kurt Cobain e Janis Joplin sob o mesmo rótulo. Auerbach valorizava a capacidade de cada texto revelar o "devir histórico" único de seus personagens. O perigo que As Últimas Horas corre é o de, ao tentar humanizar o mito, acabar criando um meta-mito — o da "morte trágica e romântica" — que unifica e apaga as individualidades que pretende explorar. A morte aos 27 anos, que deveria ser um dado biográfico, ameaça tornar-se o princípio organizador da narrativa, um fator estético que nivela as diferenças e compromete a profundidade psicológica.

Além disso, a própria escolha do momento da morte, se não for executada com o máximo de rigor e distanciamento crítico, pode resvalar para a exploração do espetáculo. Auerbach alertava para a diferença entre a mera "descrição externalizada" (homérica) e a representação que carrega "história" e "problema" (bíblica). O grande triunfo de Leonardi é tentar a segunda via; seu desafio é não permitir que a potência trágica do fim se transforme em um novo e brilhante "primeiro plano" que ofusca a complexidade da vida que o antecedeu.

As Últimas Horas é um livro que se sustenta na tensão entre a epopeia da fama e a tragicomédia da existência. Rodrigo Leonardi realiza um trabalho corajoso e, em muitos momentos, bem-sucedido, ao dar forma literária a um fascínio cultural contemporâneo, aplicando um tratamento sério e intimista a figuras consumidas como lendas. Vista pela lente de Erich Auerbach, a obra é um experimento fascinante de "realismo moderno" aplicado ao mito pop, uma tentativa de escavar os "segundos planos" da existência de ídolos cujas vidas foram vividas em um palco sem bastidores. Se eventualmente tropeça nos próprios clichês que tenta combater e se a "morte" unifica mais do que deveria, o livro oferece momentos de verdadeira potência narrativa, mas, ao fazer isso, reafirma a eterna e complexa luta da literatura para representar, com seriedade, a realidade do sofrimento humano.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

RESENHA - As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi : Um Atalho Fascinante, mas riscante

 


Rodrigo Leonardi escolhe um ponto de partida magneticamente sedutor: reconstruir, em contos, as últimas horas de vida de ícones que morreram aos 27 anos, integrantes do chamado “Clube dos 27”, mas também outros. A premissa é forte e imediatamente evoca questões universais sobre mito, destino, autodestruição, genialidade truncada e o peso da fama. O risco, porém, é enorme: como abordar figuras tão massivamente mitificadas (como Jim Morrison, Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Jimi Hendrix, entre outros) sem cair na hagiografia, no clichê ou na pura especulação sensacionalista? Leonardi navega bem por essas águas turbulentas e não sucumbe às suas tentações.

Leonardi não opta por uma reconstituição jornalística ou biográfica. Seu projeto é literário e intimista. Os contos são mergulhos subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas dos momentos que antecedem a morte dessas personalidades. O estilo tende ao lírico, às vezes barroco, buscando capturar não os fatos brutos, mas os estados de espírito – a angústia, a névoa das drogas, a solidão em meio ao caos, o cansaço extremo, o diálogo interno torturado.

Esse é um dos acertos do livro: deslocar o foco do evento espetacular da morte para a experiência interior (ficcionalizada) que a precede. Em alguns momentos, a representação da dissonância entre a pessoa e o personagem público, entre a dor íntima e o palco global, é tocante e aguda. Em outros, a crueza do vício e a sombra da mídia são combinadas de forma eficaz.

As Últimas Horas cumpre o nobre serviço de (tentar) humanizar figuras que se tornaram mais símbolos do que pessoas. Leonardi os mostra frágeis, assustados, confusos, muitas vezes à deriva. A linguagem, carregada de imagens sensoriais (som, textura, luz embaçada), cria claustros existenciais que transmitem o desespero e o esgotamento. O conto sobre Jim Morrison, por exemplo, evoca mais o filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de palco, o que é uma escolha interessante.

        O livro, porém, não escapa ileso de suas próprias armadilhas. O principal problema é a tendência a recorrer a lugares-comuns sobre “o preço da fama” e “o artista torturado”. Há um risco de romantização da autodestruição, ainda que não explícita, mas latente na escolha de um foco tão exclusivo no momento da queda. Há também certa uniformidade de tom. Apesar de tentar vozes e perspectivas diferentes (alguns contos são em primeira pessoa, outros em terceira; alguns mais oníricos, outros mais realistas), muitas das narrativas convergem para uma mesma sensação de naufrágio e dissolução. A morte aos 27 torna-se, paradoxalmente, um fator unificador que ameaça apagar as individualidades que o livro pretende explorar.

É inevitável questionar: até onde podemos ou devemos imaginar os últimos momentos de uma pessoa real? Leonardi parece consciente desse dilema e evita o óbvio, tratando seus personagens com dignidade e evitando exploração mórbida direta. O livro pede um pacto de leitura claro (para relembrar de Umberto Eco): isto é ficção inspirada em realidade, não biografia.

As Últimas Horas é um livro ambicioso e corajoso. Rodrigo Leonardi encara o desafio de dar forma literária a um fascínio cultural contemporâneo. Se nem todos os contos atingem a mesma força, e se a obra por vezes tropeça na grandiosidade de seu próprio tema, ela oferece momentos de verdadeira potência narrativa e reflexão.

É mais bem-sucedido como um estudo sobre o fim – sobre o colapso físico e psicológico – do que como um conjunto de retratos definitivos das personalidades envolvidas. Funciona como um memento mori para ídolos que pareciam imortais, lembrando-nos de sua humanidade radical e trágica.

Recomendado As últimas Horas para quem se interessa por literatura contemporânea, pelo mito do “Clube dos 27” e por narrativas que exploram os limites entre a persona pública e o self privado, desde que o leitor esteja disposto a perdoar certas recaídas no tom excessivamente lírico e a aceitar o caráter conjectural do projeto.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O esporte mais difícil – o melhor fabbro

 



Quando T. S. Eliot afirmou que Pound era o il miglior fabbro, o mestre do mantra do Prufrock pensava nos possíveis caminhos do que viriam a se tornar o imagismo e todo o modernismo do início do século XX. A profusão das vanguardas e suas paradoxais relações de autores com o fascismo (o próprio Pound, Marinetti, Céline, Hamsun) ajudaram a tecer a colcha de retalhos do século XX com o fio de Ariadne.

Chegando em Curitiba, em 2025, um dos grandes livros de poesia que me cai em mãos é O esporte mais difícil, do poeta curitibano Raul K. Souza (Telaranha, 80 páginas). Raul K. Souza tem licenciatura em Filosofia pela PUCPR. Tem mais de dez anos de experiência no mercado do livro: foi livreiro, editor, leitor de originais e, atualmente, é gerente da Livraria Telaranha. É um dos mediadores de leitura do Clube Nara. Publicou Ligações que rasgam (Kotter, 2021), participou das antologias Antologia poética LiteraturaBr (2021), 1001 Poetas (Casa Brasileira de Livros, 2022) e Chão Brasil (Membrana Literária, 2024).

O esporte mais difícil é um livro dividido em duas partes: Uma vez no banheiro e Posição de amor. As temáticas que Raul explora no livro todo transitam entre questões do corpo, do desejo, da perda, do luto e do encontro. Os poemas de O esporte mais difícil passam muito longe da horrorosa e pavorosa palavra tão cara à poesia contemporânea, a tal da “resiliência”, quer dizer, não é um livro com respostas, muito menos com afagos, mas sim um trabalho profundo, cuidadoso, lírico e denso com o fazer poético.

O leitor de Raul nesse seu novo livro deve permanecer atento, pois os labirintos que separam prosa e poesia, ou prosa narrativa de poemas em prosa são muito tênues; e na verdade nada significam. Poesia é ritmo, é imagem, é linguagem, é símbolo. Precisamos lembrar da trindade poundiana mais uma vez? Logopeia. Melopeia. Fanopeia.

O esporte mais difícil é o livro de um autor mais maduro, mais consciente de sua poética e de como sua arte torna-se linguagem, e de como a linguagem torna-se comunicação. Por entre espaços deixados à deriva para o leitor atento, em muitos poemas nos deparamos com pequenas provocações, como enjambements que precisam de atenção redobrada, metáforas densas e referências não muito sutis. Mesmo discordando, a princípio, do título do livro, apreendi suas armadilhas e peripécias, e não poderia ser mais acertado, pois o próprio ato de viver é bastante complicado, como a ausência, como a palavra, como a linguagem.  

 


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Madame Psicose: ritmo, som e fúria nas araucárias

 





Pound já nos serviu da melopeia para pensarmos na parte musical, melódica de um texto. Thomas Bernhard e Céline nos brindaram com dois dos maiores especialistas em impropérios da literatura: Franz-Josef Murau (protagonista de Extinção); e Ferdinand Bardamu (protagonista de Voyage au bout de la nuit).

João Lucas Dusi, editor e escritor curitibano nascido em 1995, lançou seu terceiro livro em 2025, a breve narrativa Madame Psicose. Qual a relação entre Dusi, Céline e Bernhard? A princípio, sua fúria narrativa, sua musicalidade frenética e sua perversidade que atinge níveis absurdos da lógica da honestidade são alguns dos pontos de convergência.

Madame Psicose é um relato com pouco mais de setenta páginas, mas cabe ao leitor identificar seus labirintos ficcionais e não-ficcionais. Um escritor puto da cara, cocainômano e em constante crise existencial e em abstinência aponta para tudo e todos. Cospe impropérios contra a academia, contra o trabalhador fodido, contra o patrão pau no cu que fode com o funcionário, contra o lumpem proletário que fode com seu colega, contra intelectuais de butique, contra a classe artística de Curitiba, contra os políticos, contra quem escreve, contra quem não escreve, e o resultado é uma prosa absolutamente vertiginosa, forte, lírica, repleta de referências que vão das fine arts à cultura pop, perversa e, claro, com um trabalho de linguagem impressionante.

Como boa parte dos grandes livros, um dos pontos altos de Madame Psicose é o fato de a narrativa não se limitar a si própria, quer dizer, não sabemos se é uma novela, um relato autobiográfico e aqui podemos pensar em outro grande autor que sei que também é caro ao Dusi, Karl Ove Knausgard, o norueguês que frequentemente era (de forma equivocada) comparado a Proust, e que em seis volumes escreveu sobre suas experiências próprias, com nomes verdadeiros e acontecimentos reais. O que lhe custou um divórcio e vários outros rompimentos com a família.

Ser biográfico, autobiográfico ou puramente ficcional, na verdade nada significa desde que a prosa seja sincera, tenha potência, lirismo e linguagem; linguagem, aliás, é o elemento mais em baixa na literatura contemporânea. Como o próprio João repete reiteradas vezes, inclusive em sua narrativa hiperbólica de Madame Psicose, a busca pela literatura edificante tornou-se um ponto norteador entre escritores fofinhos e hipsters, que estão mais preocupados com celebrações instagramáveis do que com literatura de verdade. Bem, um sonoro foda-se a eles.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Salens - labirintos narrativos e o cronotopo



Salens, de Nicolas V Roza, insere-se no campo da fantasia contemporânea com um enfoque estético que privilegia a construção minuciosa do espaço ficcional e a organização narrativa típica das sagas. A obra articula elementos épicos e simbólicos por meio de um forte investimento na descrição, o que a aproxima de tradições da alta fantasia e de certas matrizes narrativas de longo fôlego. A partir de um olhar crítico, torna-se possível ler Salens como um texto que dialoga, consciente ou intuitivamente, com marcos teóricos relevantes da narratologia e do estudo dos gêneros.

predomínio da descrição na obra, por exemplo, pode ser compreendido à luz do conceito bakhtiniano de cronotopo, entendido como a interdependência entre espaço e tempo narrativos. Roza estrutura seu universo ficcional de modo a fazer do espaço uma forma ativa de significação: montanhas, florestas, fronteiras e atmosferas deixam de ser pano de fundo e tornam-se operadores simbólicos que orientam tanto a ação quanto as expectativas do leitor. O cronotopo de Salens é denso e expansivo, resultando em um ritmo que privilegia a imersão em detrimento da aceleração narrativa.
A dimensão fantástica da obra aproxima-se da definição proposta por Tzvetan Todorov, na qual o fantástico se constrói a partir da hesitação entre o natural e o sobrenatural. Embora Salens tenda a se firmar mais no maravilhoso do que no fantástico puro, Roza mobiliza a sugestão de mistério e ambiguidade, sobretudo nos primeiros contatos com entidades, fenômenos e mitologias do universo criado. A obra se situa, assim, em um contínuo entre a alegoria e o mito, reforçando uma estética que não rompe com o racional, mas o expande.
No que concerne à trajetória dos personagens, é possível identificar elementos que dialogam com a estrutura do monomito de Joseph Campbell, especialmente a jornada de partida, provação e retorno, ainda que Salens empregue essas etapas de maneir
a não linear e mais difusa. Os protagonistas parecem moldados por chamadas internas e externas, por vezes associadas a linhagens, presságios ou responsabilidades herdadas, o que os inscreve na tradição do herói arquetípico. No entanto, Roza evita aderir de forma rígida ao esquema campbelliano, preferindo tensioná-lo por meio de uma construção psicológica mais atmosférica.
Do ponto de vista estrutural, algumas sequências se aproximam dos atos narrativos estudados por Vladimir Propp, sobretudo quando a narrativa apresenta provas, interdições, doadores e auxiliares mágicos. Ainda que Salens não seja um conto maravilhoso — escopo clássico das análises de Propp —, certos padrões funcionais reaparecem como ecos estruturais, sugerindo que Roza absorve, transforma e atualiza matrizes arquetípicas na composição de sua saga.
worldbuilding, por sua vez, demonstra aderência a práticas reconhecidas na fantasia moderna, como a construção de mapas internos, hierarquias míticas e sistemas culturais próprios. A densidade descritiva, embora às vezes gere ralentização, reforça o que autores como Mark J. P. Wolf chamam de “complexidade ontológica”: um universo que parece existir para além da narrativa, independentemente do olhar do leitor. Roza privilegia, assim, um modelo de expansão enciclopédica, no qual cada detalhe espacial ou cultural cumpre função dentro da lógica interna do mundo.
Se há um ponto a ser problematizado, ele reside justamente no equilíbrio entre descrição e progressão. O investimento contínuo no detalhamento, embora coerente com a estética da saga, pode por vezes atenuar o impacto dos momentos dramáticos ou retardar a evolução psicológica dos personagens. Essa dinâmica gera uma tensão formal entre contemplação e avanço narrativo — uma tensão, vale dizer, produtiva, pois revela o projeto autoral da obra: priorizar o ambiente como motor de sentido.
Em síntese, Salens é uma narrativa que se beneficia de leituras à luz da teoria literária, pois demonstra diálogo com tradições épicas, modelos arquetípicos e reflexões sobre espaço e mito. A obra revela maturidade formal, ambição estética e um raro compromisso com a criação de um universo ficcional de grande densidade imagética. Seu ritmo deliberadamente lento não constitui fragilidade, mas escolha poética — ainda que possa exigir mais dos leitores que busquem ação imediata.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Salens - Uma Saga de Fantasia Brasileira com Luz e Sombra


 

Salens, do escritor Nicolas V. da Roza, emerge no cenário da fantasia nacional como um projeto ambicioso, uma tentativa corajosa de esculpir um épico à altura dos grandes nomes do gênero. A obra promete um mundo complexo, magia intrincada e um elenco vasto de personagens, convidando o leitor a mergulhar em suas profundezas. Após a leitura, a impressão que fica é a de um diamante bruto: de valor inegável e com lampejos de brilho intenso, mas que ainda requer um polimento final para cintilar com todo o seu potencial.

O Mundo e a Magia: Os Pilares da Obra

O maior trunfo de Salens reside, sem dúvida, na sua construção mundial. Nicolas V. da Roza demonstra uma imaginação fértil ao criar o reino de Salens, com sua geografia, história, culturas e sistemas de magia próprios. O sistema mágico, em particular, é um dos elementos mais bem desenvolvidos. Longe de ser uma ferramenta conveniente, ele apresenta regras, limitações e custos, adicionando uma camada de estratégia e consequência que é essencial para uma boa fantasia. A sensação é de que o autor conhece cada detalhe do seu universo, desde os tratados políticos entre as casas nobres até a mitologia por trás da magia mais obscura. Esse cuidado confere uma solidez e uma imersão que irão agradar profundamente aos fãs de worldbuilding denso, como o visto em  A Roda do Tempo ou O Senhor dos Anéis.

Onde a obra encontra seus maiores desafios é na execução da sua narrativa. A ambição de contar uma história de proporções épicas, com múltiplos pontos de vista e tramas políticas entrelaçadas, é nobre, mas acaba se tornando uma faca de dois gumes. O ritmo, especialmente na primeira metade do livro, é frequentemente lento e fragmentado. A introdução de um número muito grande de personagens e cenários em um curto espaço de tempo pode ser avassaladora e, por vezes, confusa, dificultando que o leitor crie um vínculo imediato com a trama principal.

Os personagens, por sua vez, são um conjunto eclético. Alguns se destacam por seus arcos bem delineados e motivações complexas, mostrando evolução e profundidade psicológica. No entanto, outros podem soar um pouco planos ou como arquétipos conhecidos do gênero (o herói relutante, o mentor sábio, a guerreira ferina). O desenvolvimento, por vezes, é sacrificado em prol da necessidade de mover as peças do grande tabuleiro de Salens. Um foco mais restrito em um grupo central menor poderia ter aprofundado a conexão emocional, sem abrir mão da grandiosidade do conjunto.

A escrita de Nicolas V. da Roza é elaborada e rica em descrições, o que contribui para a construção da atmosfera do mundo. No entanto, em certos momentos, a prosa pode se tornar densa e um pouco prolixa, com diálogos que soam mais expositivos do que naturais. Há passagens onde a mostra poderia substituir vantajosamente a contação, permitindo que o leitor descubra os segredos do mundo pela ação e subtexto, em vez de longas explicações. Este é um desafio comum em sagas de fantasia, e um ajuste no equilíbrio entre descrição, diálogo e ação poderia tornar o fluxo da narrativa mais fluido e cativante.

Salens não é uma leitura fácil ou casual. É um compromisso, um convite para um leitor paciente e disposto a navegar por um oceano de detalhes e tramas complexas. A obra padece de alguns dos problemas clássicos de uma estreia ambiciosa em um universo próprio: o excesso de informação e uma certa inconstância no ritmo.

No entanto, seria uma injustiça não reconhecer o trabalho monumental por trás do livro. Nicolas V. da Roza planta as sementes de uma saga que tem potencial para se tornar algo notável na fantasia brasileira. A base está lá: um mundo vivo, um sistema mágico interessante e conflitos que prometem se intensificar.

Recomendo Salens principalmente para os aficionados em fantasia épica, que apreciam a construção de mundos acima de tudo e não se importam em investir tempo e paciência no estabelecimento de uma série. Se o autor aprimorar o foco narrativo e a fluidez da prosa nos próximos volumes, Salens tem todas as credenciais para evoluir de um diamante em bruto para uma joia cintilante no cenário literário.


Daniel Osiecki, professor, editor e escritor

sábado, 8 de novembro de 2025

Agonia na Tumba: Uma Sinfonia de Sombras na Prosa de Tarcísio Pereira

 



Se a literatura é um vasto cemitério de almas e formas, então a prosa poética de Tarcísio Pereira em Agonia na Tumba é o lamento mais sublime que ecoa de suas catacumbas mais profundas. Seu labirinto metafísico é como veredas em um palácio decadente da mente, onde cada sala é um recinto da alma, mobiliado não com objetos, mas com símbolos pujantes de melancolia, angústia e uma beleza perversa que brota da própria podridão. Não se trata de um romance no sentido convencional, mas de um longo e vertiginoso mergulho em uma subjetividade em dissolução, uma experiência que evoca, com força singular, o espírito dos grandes romances simbolistas de Gonzaga Duque.

Agonia da tumba foi lançado originalmente em 1993, e foi indicado ao Prêmio Moinho Santista. Tracísio Pereira é escritor, teatrólogo, jornalista e publicitário. Paraibano, o autor nasceu em 1965, na cidade de Pombal-PB, e tem uma intensa produção literária. É autor de vários livros e já recebeu diversos prêmios literários. Nas pouco mais de cem páginas de Agonia da tumba, Pereira constrói uma narrativa psicológica, porém ágil, em meio a uma atmosfera de horror. Seus capítulos curtos funcionam como flashes sob a perspectiva desse “enterrado vivo” que, a partir da anulação telúrica, tece reflexões sem poder agir.




Assim como Duque, em Mocidade Morta, explorava os meandros de uma sensibilidade doentia e ultrarrefinada, Tarcísio Pereira constrói sua narrativa a partir de uma consciência que agoniza, confinada na "tumba" de seu próprio ser, de sua própria memória ou de um espaço físico que é a extensão de sua psique. A trama, se é que podemos chamar assim, cede lugar à atmosfera. Os eventos são substituídos por estados ontológicos, e a linguagem não descreve, mas sugere. A prosa é densa, musical e deliberadamente embaçada, como se vista através de um véu úmido de lágrimas e, junto a isso, seu registro literário também é direto, é desbocado.

O símbolo como alicerce é onde Pereira mais acerta. A "tumba" do título não é um mero local de enterro, mas elementos alegorizados multifacetados: é a mente claustrofóbica do protagonista, o corpo que o aprisiona, a sociedade que o asfixia, a tradição literária que o oprime e, por fim, o próprio livro como artefato mortal. A luz, quando aparece, é pálida, doentia, lunar, incapaz de aquecer, apenas de revelar sombras e contornos de uma realidade em decomposição. As cores são sombrias – tons de púrpura apodrecido, ouro enegrecido, o branco cadavérico de estátuas em jardins abandonados, a imagem de Elvira. 

Há uma sensualidade tanatográfica que permeia cada página, outra herança simbolista e decadentista. O prazer e a dor, o êxtase e a agonia, fundem-se em um abraço perverso. A figura feminina, quando surge, é menos uma pessoa e mais uma aparição, uma visão onírica e fatal, evocando as musas etéreas e destrutivas de um Baudelaire ou de um Álvares de Azevedo. Ela é a própria encarnação do desejo que corrói e da beleza que mata.

A linguagem de Pereira é um caleidoscópio estilístico. Cada período é cinzelado como uma joia fúnebre. As frases são longas, sinuosas, cheias de incisos e de um ritmo quase obsessivo, que imita o fluxo de consciência de um moribundo. É uma prosa para ser degustada lentamente, saboreando suas aliterações, suas imagens e seu vocabulário precioso e arcaizante ao mesmo em que se utiliza de variações coloquiais da linguagem cotidiana. O autor não tem pressa para contar; seu objetivo é fazer o leitor habitar a agonia.

Agonia na Tumba é um livro que flerta com o noir, com a narrativa de mistério. É uma experiência forte, exigente e potencialmente opressiva. Sua beleza é daquelas que cortam os dedos de quem a toca. Para o leitor acostumado às narrativas lineares e aos propósitos claros, será como caminhar por um labirinto sem saída. Mas para aqueles que se deleitam com a vertigem do abismo, com a música das palavras em estado puro e com a exploração dos limites mais sombrios da condição humana, esta obra é uma joia rara.

Tarcísio Pereira, com este livro, não apenas homenageia a tradição simbolista, mas a revive e a recria com uma voz contemporânea e autêntica. Agonia na Tumba é um funesto e deslumbrante exemplo de prosa poética, um testemunho de que a mais profunda beleza pode, e muitas vezes deve, ser encontrada na própria agonia.


Daniel Osiecki, escritor, editor e professor