quarta-feira, 20 de maio de 2026

RESENHA: A Sombra e o Abismo – A pústula e o cosmos: Algum Poema, de Carlos Nunes

 




É raro, na produção literária contemporânea, encontrar um autor que consiga transitar com tamanha desenvoltura entre o íntimo e o universal, entre a confissão visceral e a indagação metafísica. Carlos Nunes, em Algum Poema, consegue o feito notável de resgatar a angústia do Ultrarromantismo sem cair no mero pastiche, utilizando a chama do século XIX para iluminar as fissuras do século XXI. O livro é um mergulho num "eu" dilacerado, mas que busca incessantemente um "outro" — seja ele a amada, a morte ou a própria consciência.

A influência de Álvares de Azevedo é a mais evidente e bem trabalhada por Nunes. Assim como o autor da Lira dos Vinte Anos, o poeta contemporâneo cultiva a arte do tédio sublime e da noite interior. A tese de doutorado de Alexandre de Melo Andrade lembra que, na tradição romântica, "o Eu transcende a Natureza física", estabelecendo com ela "um entendimento interno”. Em Nunes, no entanto, essa transcendência é constantemente frustrada.

Enquanto Azevedo buscava na natureza o refúgio para o "mal do século" — a sombra das árvores, o murmúrio do vento —, Nunes parece estar preso em um quarto escuro, onde a natureza é apenas uma lembrança distante ou uma imagem na tela. Onde Azevedo ironizava o amor e a morte com uma morbidez quase jovial (pense em "Se eu morresse amanhã"), Nunes encara o vazio com uma lucidez que dói. Se há ironia em Algum Poema, ela é cínica, desencantada, fruto de um mundo que já viu todas as promessas românticas falharem. O Ultrarromantismo de Nunes é o de um sobrevivente: a chama ainda arde, mas já não ilumina o caminho; apenas queima as mãos.

Entretanto, a comparação mais instigante, e talvez a mais precisa para definir a originalidade de Nunes, é com Augusto dos Anjos. Se Azevedo fornece o tom emocional da obra, é Augusto dos Anjos quem empresta a "cara" para os monstros que habitam os versos.

Carlos Nunes compartilha com o autor de Eu a obsessão pelo cientificismo e pela degradação da matéria. Em Augusto dos Anjos, o vocabulário biológico e médico não é decorativo; ele serve para expor a "coisificação" do homem, como bem analisa Carlos Romero: "o seu léxico científico não se encontra na sua poesia como palavras aleatórias ou como mero adorno, cosmética superficial, mas com um propósito definido de entender a vida, na sua forma material”. Nunes opera de forma semelhante.

Em Algum Poema, o corpo não é apenas um templo romântico em ruínas; ele é um laboratório de falhas. As metáforas biológicas e químicas emergem nos momentos de maior tensão lírica, transformando a dor emocional em um fenômeno físico quase clínico. A grande diferença entre os dois é a direção do olhar. Augusto dos Anjos olhava para o universo e via a "coalescência" dos átomos, a certeza da decomposição cósmica. Nunes, por sua vez, parece ter internalizado essa visão de horror metafísico e a aplica às relações humanas e à solidão digital. Ele não canta a "podridão" do mundo; ele filma em slow motion a explosão de uma célula cancerosa dentro do peito.

Nunes resolve um problema que assombra a poesia contemporânea: como falar de sentimentos universais (solidão, amor, morte) sem recorrer aos clichês do passado, mas também sem abraçar uma frieza conceitual que anula a emoção? Algum Poema é a resposta. Ele pega o "tédio" de Azevedo e o transforma em burnout; pega o "verme" de Augusto dos Anjos e o transforma em algoritmo.

O eu-lírico de Algum Poema é um organismo ferido que, mesmo cego e dilacerado, ainda se move em direção a um clarão. Mesmo ciente da escuridão cósmica (herdada de Augusto dos Anjos) e da fragilidade do corpo (herdada de Azevedo), o poema insiste em existir.

Em suma, Algum Poema é uma obra corajosa. Carlos Nunes não se contenta em imitar os gigantes; ele os convoca para um duelo no território pantanoso do presente. O resultado é uma poesia que fere, que incomoda, mas que, acima de tudo, respira — mesmo que com a asfixia característica de quem acabou de emergir de um quarto escuro e se deparou com a luz crua da realidade.

domingo, 17 de maio de 2026

RESENHA - A Poesia como Desabrigo: Uma Resenha de Protagonismo do Absurdo e outros poemas, de Rafael Walter

 



    Na contramão de uma poesia líquida e descartável que muitas vezes domina as redes, a obra do curitibano Rafael Walter se impõe como um murro na mesa — ou melhor, como um traço incerto de giz no asfalto. Em Protagonismo do Absurdo e outros poemas, Walter consolida uma estética que transita com desenvoltura (e certo desdém) entre o lodo do submundo curitibano e as constelações da alta cultura. Trata-se de uma obra visceral, que exige do leitor não apenas a razão, mas a coragem de sujar os sapatos na poeira da rua.

    A grande virtude de Walter é sua capacidade de erodir a linguagem sem perder o controle técnico. Seus versos frequentemente abandonam o lirismo açucarado em favor de uma precisão quase cirúrgica, ainda que aplicada a temas prosaicos ou degradados. Em poemas que flertam com a escatologia, encontramos a perfeita síntese de sua poética.

    Essa tessitura ecoa a poesia marginal dos anos 1970, mas sem o saudosismo festivo de um Chacrinha ou a genialidade hermética de um Waly Salomão. Walter é mais soturno. Ele parece herdar de Paulo Leminski capacidade de aludir a detalhes precisos do entorno, mas adiciona a isso um filtro.

    O título da obra não é gratuito. Walter confere ao absurdo um protagonismo raramente visto na poesia brasileira contemporânea. Não se trata do absurdo teatral de Ionesco, mas de um absurdo cotidiano, quase camusiano: a dúvida como morada. Em um de seus poemas, o eu-lírico recusa a certeza e prefere a dúvida "expandida em caos e absoluto". Essa postura é a espinha dorsal do livro.

    O sujeito poético de Walter é um andarilho metafísico que "andava torto feito um ponto de interrogação" para tentar endireitar os caminhos tortos da cidade . A referência a Curitiba — a "cidade cinza" do Sul — é difusa, mas palpável. Sentimos o frio cortar os versos, o asfalto úmido e a indiferença dos centros urbanos. Ao mesmo tempo ele revisita os clássicos com a familiaridade de quem os leu de tanto ficar acordado à noite em um barraco no litoral paranaense ou durante sua temporada na Argentina.

    Um dos maiores acertos de Walter é sua desmontagem da hierarquia cultural. O poeta é professor de literatura, especialista em Alejandra Pizarnik (cuja melancolia lúcida ecoa em seus versos) e militante político. No entanto, sua poesia insiste em olhar para "os poucos centavos no bolso" e para o "vício de saliva". Não há vergonha na pobreza material ou vocabular; há, sim, uma dignidade feroz.

    Essa dualidade fica evidente na construção de suas imagens. Ele consegue unir a sofisticação do haicai japonês à matéria fecal do "escatológico". Ele trata o corpo como vestígio, o pensamento como destroço. A coletânea anterior do autor já sinalizava essa trajetória com títulos como Palavra sem teto e Detritos e destroços. Protagonismo do Absurdo parece ser o ponto de maturação dessa jornada: a palavra não tem onde cair morta, então ela dança no vazio.

    Ler Rafael Walter é como caminhar por um terreno baldio em uma noite de geada. Há beleza no desconforto, e há música no rangido dos portões enferrujados. A crítica que se pode fazer à obra é, talvez, sua recusa ocasional ao acabamento — há momentos em que o "absurdo" serve mais como álibi para a interrupção do que como escolha estética orgânica. Em raros trechos, a voz do eu-lírico se perde em sua própria névoa existencial, deixando o leitor menos instigado.

    No entanto, esses momentos são exceção. Protagonismo do Absurdo é um retrato necessário da nova poesia paranaense, que tem no sangue a rebeldia dos "maradigmas" e na alma o rigor dos clássicos. Walter nos lembra que a poesia de verdade não mora nas antologias bem-comportadas; ela mora na rua, no escarro e no silêncio que segue o caos. Para quem está cansado do mesmo, este livro é um soco bem dado no estômago da poesia contemporânea — daqueles que tiram o fôlego, mas que nos fazem sentir vivos.

terça-feira, 7 de abril de 2026

RESENHA - A Sombra e a Carne – A Estética Noir de Rodrigo Leonardi





A mais estranha das vidas é um mergulho viscoso nas entranhas do submundo, onde a prosa não apenas descreve a escuridão, mas respira com o ritmo pesado e cansado de um detetive alcoólatra. Leonardi domina uma técnica rara na literatura nacional: a prosa obscura. Aqui, as palavras não buscam a beleza lírica convencional, mas sim a precisão da decomposição. O autor constrói frases que parecem manchadas de graxa e sangue seco. A obscuridade não está apenas no que é dito, mas no como se esconde a informação, obrigando o leitor a caminhar com a lanterna trêmula do protagonista pelos becos da narrativa.

Há uma fome visual no texto que remete diretamente às revistas pulp dos anos 30 e 40. As descrições são rápidas, cortantes, mas ao mesmo tempo sujas. As mulheres são fatais e decadentes; os homens, brutos e derrotados. A influência de autores como Dashiell Hammett ou Raymond Chandler é evidente não na cópia, mas na transposição de um ethos específico: a ideia de que, no fundo do poço, a moralidade é apenas um luxo que o protagonista não pode mais pagar.

O grande acerto de Leonardi é não tentar transplantar Los Angeles para o Brasil. Ele usa a estética noir — a chuva eterna, as luzes de neon quebradas, o cinismo como escudo — para falar de uma solidão muito brasileira. A prosa "estranha" do título talvez se refira a essa vida dupla do texto: ao mesmo tempo clássico no tom e visceralmente contemporâneo nos conflitos.

A mais estranha das vidas é para quem gosta de literatura que sangra. Não espere alívio ou respiros longos. Rodrigo Leonardi escreve como quem cutuca uma ferida com a ponta de um canivete: com precisão cirúrgica e uma certa crueldade poética. É um livro que fede a whisky barato e frustração, e exatamente por isso é impossível largar.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

RESENHA - A Humanização do Mito: As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi e a luta por uma representação séria no cotidiano da morte

 




Rodrigo Leonardi, em As Últimas Horas, propõe um exercício literário de alto risco e fascínio: reconstruir, através da ficção, os momentos finais de ícones da cultura pop. Ao eleger figuras como Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse e outros, o autor não busca a biografia factual ou o sensacionalismo jornalístico. Seu projeto é mais ambicioso e essencialmente literário — ele tenta humanizar o mito, mergulhando na subjetividade, na solidão e na degradação que antecedem o desfecho trágico. É justamente nesse ponto que a obra de Leonardi encontra um diálogo profundo — ainda que possivelmente não intencional — com as questões fundamentais levantadas por Erich Auerbach em sua obra-prima, Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental.

A premissa do livro é magneticamente sedutora. Leonardi desloca o foco do espetáculo da morte — tão explorado pela mídia e pelo imaginário popular — para a experiência interior que a precede. São contos que funcionam como mergulhos subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas. O estilo do autor, frequentemente lírico e sensorial, busca capturar não os fatos, mas os estados de espírito: a angústia, a névoa química das drogas, o cansaço extremo de existir sob o peso da fama, o diálogo interno torturado entre a pessoa e o personagem público.

Essa abordagem é o grande acerto do livro. Ao tentar narrar a "dissonância" entre a dor íntima e o palco global, Leonardi confere dignidade a essas figuras, tratando-as não como símbolos, mas como pessoas frágeis, confusas e à deriva. O leitor é convidado a um pacto de ficção que permite a empatia, afastando-se da mera curiosidade mórbida.

Para compreender a magnitude e as armadilhas desse projeto, a teoria de Erich Auerbach é uma ferramenta indispensável. Em Mimesis, Auerbach traça uma história da representação do real no ocidente, partindo de uma dicotomia fundamental. De um lado, o estilo homérico (presente na Odisseia), que trata os fenômenos de forma totalmente externalizada, uniforme e sem profundidades, mantendo tudo em um "primeiro plano" brilhante e legendário. De outro, o estilo bíblico (presente no Antigo Testamento), que é repleto de "segundos planos", sugestões do não-dito, multiplicidade de significados e, crucialmente, a representação séria de figuras cotidianas e problemáticas.

Para Auerbach, a grande virada na literatura ocidental é a ruptura com a antiga "doutrina dos níveis de estilo", que reservava o tratamento trágico e sério apenas às classes altas e aos grandes feitos, relegando o povo e o cotidiano ao estilo cômico ou baixo. A tradição bíblica, ao narrar o drama de pessoas comuns diante do divino, e posteriormente a literatura cristã, com o modelo da sublimitas e humilitas de Cristo, criaram as bases para o que Auerbach chama de "realismo moderno": a capacidade de tratar o cotidiano, o popular e o trivial com a mais profunda seriedade e tragédia . É essa tradição que permite a Flaubert, Stendhal, Proust e Woolf a imersão na psicologia de personagens comuns, revelando a historicidade e a profundidade de suas existências.

É sob essa luz que As Últimas Horas deve ser lido. Leonardi enfrenta um desafio que é o reverso da moeda do processo histórico descrito por Auerbach. Ele não precisa elevar o comum ao trágico; seu ponto de partida é o "herói" trágico, a figura elevada pelo mito pop. Sua tarefa é fazê-la descer ao solo da condição humana, revelar o "segundo plano" que a tradição homérica da fama insiste em ocultar.

Nesse sentido, a obra é profundamente auerbachiana. Ao focar no momento de colapso — na solidão de um quarto de hotel, no delírio de uma overdose, no cansaço extremo — Leonardi aplica o "tratamento sério" não a um rei ou guerreiro, mas a roqueiros e estrelas. Ele os insere no que Auerbach chamaria de "realismo profundo", preocupado com o "devir histórico" e a complexidade psicológica do indivíduo .

O conto sobre Jim Morrison, por exemplo, ao evocá-lo mais como "filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de palco" , é uma tentativa de escavar as camadas soterradas pelo mito. É a busca pela verdade interior, pela "multiplicidade de significados" que a imagem pública unidimensional tende a achatar. A linguagem lírica e sensorial de Leonardi, carregada de imagens de "textura" e "luz embaçada”, funciona como uma ferramenta para criar essa atmosfera de "fundo", esse espaço de sugestão onde o drama íntimo pode, finalmente, ser narrado com a seriedade que a tragédia humana exige.

Se, por um lado, a obra dialoga com a conquista do realismo moderno, por outro, ela expõe as fraturas e os limites desse processo. O principal risco apontado pela crítica — e sentido na leitura — é a tendência a recorrer a "lugares-comuns sobre o preço da fama e o artista torturado". Aqui, a representação ameaça desabar sobre si mesma.

Quando a narrativa escorrega para o clichê, ela abandona a complexidade bíblica e retorna, ainda que brevemente, a uma forma de mitificação. O "artista torturado" é, ele próprio, um mito moderno, um novo nível de estilo que uniformiza a experiência individual de Kurt Cobain e Janis Joplin sob o mesmo rótulo. Auerbach valorizava a capacidade de cada texto revelar o "devir histórico" único de seus personagens. O perigo que As Últimas Horas corre é o de, ao tentar humanizar o mito, acabar criando um meta-mito — o da "morte trágica e romântica" — que unifica e apaga as individualidades que pretende explorar. A morte aos 27 anos, que deveria ser um dado biográfico, ameaça tornar-se o princípio organizador da narrativa, um fator estético que nivela as diferenças e compromete a profundidade psicológica.

Além disso, a própria escolha do momento da morte, se não for executada com o máximo de rigor e distanciamento crítico, pode resvalar para a exploração do espetáculo. Auerbach alertava para a diferença entre a mera "descrição externalizada" (homérica) e a representação que carrega "história" e "problema" (bíblica). O grande triunfo de Leonardi é tentar a segunda via; seu desafio é não permitir que a potência trágica do fim se transforme em um novo e brilhante "primeiro plano" que ofusca a complexidade da vida que o antecedeu.

As Últimas Horas é um livro que se sustenta na tensão entre a epopeia da fama e a tragicomédia da existência. Rodrigo Leonardi realiza um trabalho corajoso e, em muitos momentos, bem-sucedido, ao dar forma literária a um fascínio cultural contemporâneo, aplicando um tratamento sério e intimista a figuras consumidas como lendas. Vista pela lente de Erich Auerbach, a obra é um experimento fascinante de "realismo moderno" aplicado ao mito pop, uma tentativa de escavar os "segundos planos" da existência de ídolos cujas vidas foram vividas em um palco sem bastidores. Se eventualmente tropeça nos próprios clichês que tenta combater e se a "morte" unifica mais do que deveria, o livro oferece momentos de verdadeira potência narrativa, mas, ao fazer isso, reafirma a eterna e complexa luta da literatura para representar, com seriedade, a realidade do sofrimento humano.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

RESENHA - As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi : Um Atalho Fascinante, mas riscante

 


Rodrigo Leonardi escolhe um ponto de partida magneticamente sedutor: reconstruir, em contos, as últimas horas de vida de ícones que morreram aos 27 anos, integrantes do chamado “Clube dos 27”, mas também outros. A premissa é forte e imediatamente evoca questões universais sobre mito, destino, autodestruição, genialidade truncada e o peso da fama. O risco, porém, é enorme: como abordar figuras tão massivamente mitificadas (como Jim Morrison, Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Jimi Hendrix, entre outros) sem cair na hagiografia, no clichê ou na pura especulação sensacionalista? Leonardi navega bem por essas águas turbulentas e não sucumbe às suas tentações.

Leonardi não opta por uma reconstituição jornalística ou biográfica. Seu projeto é literário e intimista. Os contos são mergulhos subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas dos momentos que antecedem a morte dessas personalidades. O estilo tende ao lírico, às vezes barroco, buscando capturar não os fatos brutos, mas os estados de espírito – a angústia, a névoa das drogas, a solidão em meio ao caos, o cansaço extremo, o diálogo interno torturado.

Esse é um dos acertos do livro: deslocar o foco do evento espetacular da morte para a experiência interior (ficcionalizada) que a precede. Em alguns momentos, a representação da dissonância entre a pessoa e o personagem público, entre a dor íntima e o palco global, é tocante e aguda. Em outros, a crueza do vício e a sombra da mídia são combinadas de forma eficaz.

As Últimas Horas cumpre o nobre serviço de (tentar) humanizar figuras que se tornaram mais símbolos do que pessoas. Leonardi os mostra frágeis, assustados, confusos, muitas vezes à deriva. A linguagem, carregada de imagens sensoriais (som, textura, luz embaçada), cria claustros existenciais que transmitem o desespero e o esgotamento. O conto sobre Jim Morrison, por exemplo, evoca mais o filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de palco, o que é uma escolha interessante.

        O livro, porém, não escapa ileso de suas próprias armadilhas. O principal problema é a tendência a recorrer a lugares-comuns sobre “o preço da fama” e “o artista torturado”. Há um risco de romantização da autodestruição, ainda que não explícita, mas latente na escolha de um foco tão exclusivo no momento da queda. Há também certa uniformidade de tom. Apesar de tentar vozes e perspectivas diferentes (alguns contos são em primeira pessoa, outros em terceira; alguns mais oníricos, outros mais realistas), muitas das narrativas convergem para uma mesma sensação de naufrágio e dissolução. A morte aos 27 torna-se, paradoxalmente, um fator unificador que ameaça apagar as individualidades que o livro pretende explorar.

É inevitável questionar: até onde podemos ou devemos imaginar os últimos momentos de uma pessoa real? Leonardi parece consciente desse dilema e evita o óbvio, tratando seus personagens com dignidade e evitando exploração mórbida direta. O livro pede um pacto de leitura claro (para relembrar de Umberto Eco): isto é ficção inspirada em realidade, não biografia.

As Últimas Horas é um livro ambicioso e corajoso. Rodrigo Leonardi encara o desafio de dar forma literária a um fascínio cultural contemporâneo. Se nem todos os contos atingem a mesma força, e se a obra por vezes tropeça na grandiosidade de seu próprio tema, ela oferece momentos de verdadeira potência narrativa e reflexão.

É mais bem-sucedido como um estudo sobre o fim – sobre o colapso físico e psicológico – do que como um conjunto de retratos definitivos das personalidades envolvidas. Funciona como um memento mori para ídolos que pareciam imortais, lembrando-nos de sua humanidade radical e trágica.

Recomendado As últimas Horas para quem se interessa por literatura contemporânea, pelo mito do “Clube dos 27” e por narrativas que exploram os limites entre a persona pública e o self privado, desde que o leitor esteja disposto a perdoar certas recaídas no tom excessivamente lírico e a aceitar o caráter conjectural do projeto.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O esporte mais difícil – o melhor fabbro

 



Quando T. S. Eliot afirmou que Pound era o il miglior fabbro, o mestre do mantra do Prufrock pensava nos possíveis caminhos do que viriam a se tornar o imagismo e todo o modernismo do início do século XX. A profusão das vanguardas e suas paradoxais relações de autores com o fascismo (o próprio Pound, Marinetti, Céline, Hamsun) ajudaram a tecer a colcha de retalhos do século XX com o fio de Ariadne.

Chegando em Curitiba, em 2025, um dos grandes livros de poesia que me cai em mãos é O esporte mais difícil, do poeta curitibano Raul K. Souza (Telaranha, 80 páginas). Raul K. Souza tem licenciatura em Filosofia pela PUCPR. Tem mais de dez anos de experiência no mercado do livro: foi livreiro, editor, leitor de originais e, atualmente, é gerente da Livraria Telaranha. É um dos mediadores de leitura do Clube Nara. Publicou Ligações que rasgam (Kotter, 2021), participou das antologias Antologia poética LiteraturaBr (2021), 1001 Poetas (Casa Brasileira de Livros, 2022) e Chão Brasil (Membrana Literária, 2024).

O esporte mais difícil é um livro dividido em duas partes: Uma vez no banheiro e Posição de amor. As temáticas que Raul explora no livro todo transitam entre questões do corpo, do desejo, da perda, do luto e do encontro. Os poemas de O esporte mais difícil passam muito longe da horrorosa e pavorosa palavra tão cara à poesia contemporânea, a tal da “resiliência”, quer dizer, não é um livro com respostas, muito menos com afagos, mas sim um trabalho profundo, cuidadoso, lírico e denso com o fazer poético.

O leitor de Raul nesse seu novo livro deve permanecer atento, pois os labirintos que separam prosa e poesia, ou prosa narrativa de poemas em prosa são muito tênues; e na verdade nada significam. Poesia é ritmo, é imagem, é linguagem, é símbolo. Precisamos lembrar da trindade poundiana mais uma vez? Logopeia. Melopeia. Fanopeia.

O esporte mais difícil é o livro de um autor mais maduro, mais consciente de sua poética e de como sua arte torna-se linguagem, e de como a linguagem torna-se comunicação. Por entre espaços deixados à deriva para o leitor atento, em muitos poemas nos deparamos com pequenas provocações, como enjambements que precisam de atenção redobrada, metáforas densas e referências não muito sutis. Mesmo discordando, a princípio, do título do livro, apreendi suas armadilhas e peripécias, e não poderia ser mais acertado, pois o próprio ato de viver é bastante complicado, como a ausência, como a palavra, como a linguagem.  

 


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Madame Psicose: ritmo, som e fúria nas araucárias

 





Pound já nos serviu da melopeia para pensarmos na parte musical, melódica de um texto. Thomas Bernhard e Céline nos brindaram com dois dos maiores especialistas em impropérios da literatura: Franz-Josef Murau (protagonista de Extinção); e Ferdinand Bardamu (protagonista de Voyage au bout de la nuit).

João Lucas Dusi, editor e escritor curitibano nascido em 1995, lançou seu terceiro livro em 2025, a breve narrativa Madame Psicose. Qual a relação entre Dusi, Céline e Bernhard? A princípio, sua fúria narrativa, sua musicalidade frenética e sua perversidade que atinge níveis absurdos da lógica da honestidade são alguns dos pontos de convergência.

Madame Psicose é um relato com pouco mais de setenta páginas, mas cabe ao leitor identificar seus labirintos ficcionais e não-ficcionais. Um escritor puto da cara, cocainômano e em constante crise existencial e em abstinência aponta para tudo e todos. Cospe impropérios contra a academia, contra o trabalhador fodido, contra o patrão pau no cu que fode com o funcionário, contra o lumpem proletário que fode com seu colega, contra intelectuais de butique, contra a classe artística de Curitiba, contra os políticos, contra quem escreve, contra quem não escreve, e o resultado é uma prosa absolutamente vertiginosa, forte, lírica, repleta de referências que vão das fine arts à cultura pop, perversa e, claro, com um trabalho de linguagem impressionante.

Como boa parte dos grandes livros, um dos pontos altos de Madame Psicose é o fato de a narrativa não se limitar a si própria, quer dizer, não sabemos se é uma novela, um relato autobiográfico e aqui podemos pensar em outro grande autor que sei que também é caro ao Dusi, Karl Ove Knausgard, o norueguês que frequentemente era (de forma equivocada) comparado a Proust, e que em seis volumes escreveu sobre suas experiências próprias, com nomes verdadeiros e acontecimentos reais. O que lhe custou um divórcio e vários outros rompimentos com a família.

Ser biográfico, autobiográfico ou puramente ficcional, na verdade nada significa desde que a prosa seja sincera, tenha potência, lirismo e linguagem; linguagem, aliás, é o elemento mais em baixa na literatura contemporânea. Como o próprio João repete reiteradas vezes, inclusive em sua narrativa hiperbólica de Madame Psicose, a busca pela literatura edificante tornou-se um ponto norteador entre escritores fofinhos e hipsters, que estão mais preocupados com celebrações instagramáveis do que com literatura de verdade. Bem, um sonoro foda-se a eles.