sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

RESENHA - As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi : Um Atalho Fascinante, mas riscante

 


Rodrigo Leonardi escolhe um ponto de partida magneticamente sedutor: reconstruir, em contos, as últimas horas de vida de ícones que morreram aos 27 anos, integrantes do chamado “Clube dos 27”, mas também outros. A premissa é forte e imediatamente evoca questões universais sobre mito, destino, autodestruição, genialidade truncada e o peso da fama. O risco, porém, é enorme: como abordar figuras tão massivamente mitificadas (como Jim Morrison, Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Jimi Hendrix, entre outros) sem cair na hagiografia, no clichê ou na pura especulação sensacionalista? Leonardi navega bem por essas águas turbulentas e não sucumbe às suas tentações.

Leonardi não opta por uma reconstituição jornalística ou biográfica. Seu projeto é literário e intimista. Os contos são mergulhos subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas dos momentos que antecedem a morte dessas personalidades. O estilo tende ao lírico, às vezes barroco, buscando capturar não os fatos brutos, mas os estados de espírito – a angústia, a névoa das drogas, a solidão em meio ao caos, o cansaço extremo, o diálogo interno torturado.

Esse é um dos acertos do livro: deslocar o foco do evento espetacular da morte para a experiência interior (ficcionalizada) que a precede. Em alguns momentos, a representação da dissonância entre a pessoa e o personagem público, entre a dor íntima e o palco global, é tocante e aguda. Em outros, a crueza do vício e a sombra da mídia são combinadas de forma eficaz.

As Últimas Horas cumpre o nobre serviço de (tentar) humanizar figuras que se tornaram mais símbolos do que pessoas. Leonardi os mostra frágeis, assustados, confusos, muitas vezes à deriva. A linguagem, carregada de imagens sensoriais (som, textura, luz embaçada), cria claustros existenciais que transmitem o desespero e o esgotamento. O conto sobre Jim Morrison, por exemplo, evoca mais o filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de palco, o que é uma escolha interessante.

        O livro, porém, não escapa ileso de suas próprias armadilhas. O principal problema é a tendência a recorrer a lugares-comuns sobre “o preço da fama” e “o artista torturado”. Há um risco de romantização da autodestruição, ainda que não explícita, mas latente na escolha de um foco tão exclusivo no momento da queda. Há também certa uniformidade de tom. Apesar de tentar vozes e perspectivas diferentes (alguns contos são em primeira pessoa, outros em terceira; alguns mais oníricos, outros mais realistas), muitas das narrativas convergem para uma mesma sensação de naufrágio e dissolução. A morte aos 27 torna-se, paradoxalmente, um fator unificador que ameaça apagar as individualidades que o livro pretende explorar.

É inevitável questionar: até onde podemos ou devemos imaginar os últimos momentos de uma pessoa real? Leonardi parece consciente desse dilema e evita o óbvio, tratando seus personagens com dignidade e evitando exploração mórbida direta. O livro pede um pacto de leitura claro (para relembrar de Umberto Eco): isto é ficção inspirada em realidade, não biografia.

As Últimas Horas é um livro ambicioso e corajoso. Rodrigo Leonardi encara o desafio de dar forma literária a um fascínio cultural contemporâneo. Se nem todos os contos atingem a mesma força, e se a obra por vezes tropeça na grandiosidade de seu próprio tema, ela oferece momentos de verdadeira potência narrativa e reflexão.

É mais bem-sucedido como um estudo sobre o fim – sobre o colapso físico e psicológico – do que como um conjunto de retratos definitivos das personalidades envolvidas. Funciona como um memento mori para ídolos que pareciam imortais, lembrando-nos de sua humanidade radical e trágica.

Recomendado As últimas Horas para quem se interessa por literatura contemporânea, pelo mito do “Clube dos 27” e por narrativas que exploram os limites entre a persona pública e o self privado, desde que o leitor esteja disposto a perdoar certas recaídas no tom excessivamente lírico e a aceitar o caráter conjectural do projeto.


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