quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Madame Psicose: ritmo, som e fúria nas araucárias

 





Pound já nos serviu da melopeia para pensarmos na parte musical, melódica de um texto. Thomas Bernhard e Céline nos brindaram com dois dos maiores especialistas em impropérios da literatura: Franz-Josef Murau (protagonista de Extinção); e Ferdinand Bardamu (protagonista de Voyage au bout de la nuit).

João Lucas Dusi, editor e escritor curitibano nascido em 1995, lançou seu terceiro livro em 2025, a breve narrativa Madame Psicose. Qual a relação entre Dusi, Céline e Bernhard? A princípio, sua fúria narrativa, sua musicalidade frenética e sua perversidade que atinge níveis absurdos da lógica da honestidade são alguns dos pontos de convergência.

Madame Psicose é um relato com pouco mais de setenta páginas, mas cabe ao leitor identificar seus labirintos ficcionais e não-ficcionais. Um escritor puto da cara, cocainômano e em constante crise existencial e em abstinência aponta para tudo e todos. Cospe impropérios contra a academia, contra o trabalhador fodido, contra o patrão pau no cu que fode com o funcionário, contra o lumpem proletário que fode com seu colega, contra intelectuais de butique, contra a classe artística de Curitiba, contra os políticos, contra quem escreve, contra quem não escreve, e o resultado é uma prosa absolutamente vertiginosa, forte, lírica, repleta de referências que vão das fine arts à cultura pop, perversa e, claro, com um trabalho de linguagem impressionante.

Como boa parte dos grandes livros, um dos pontos altos de Madame Psicose é o fato de a narrativa não se limitar a si própria, quer dizer, não sabemos se é uma novela, um relato autobiográfico e aqui podemos pensar em outro grande autor que sei que também é caro ao Dusi, Karl Ove Knausgard, o norueguês que frequentemente era (de forma equivocada) comparado a Proust, e que em seis volumes escreveu sobre suas experiências próprias, com nomes verdadeiros e acontecimentos reais. O que lhe custou um divórcio e vários outros rompimentos com a família.

Ser biográfico, autobiográfico ou puramente ficcional, na verdade nada significa desde que a prosa seja sincera, tenha potência, lirismo e linguagem; linguagem, aliás, é o elemento mais em baixa na literatura contemporânea. Como o próprio João repete reiteradas vezes, inclusive em sua narrativa hiperbólica de Madame Psicose, a busca pela literatura edificante tornou-se um ponto norteador entre escritores fofinhos e hipsters, que estão mais preocupados com celebrações instagramáveis do que com literatura de verdade. Bem, um sonoro foda-se a eles.


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