Madame Psicose: ritmo, som e fúria nas araucárias
Pound
já nos serviu da melopeia para pensarmos na parte musical, melódica de um texto.
Thomas Bernhard e Céline nos brindaram com dois dos maiores especialistas em
impropérios da literatura: Franz-Josef Murau (protagonista de Extinção); e Ferdinand Bardamu (protagonista
de Voyage au bout de la nuit).
João
Lucas Dusi, editor e escritor curitibano nascido em 1995, lançou seu terceiro
livro em 2025, a breve narrativa Madame Psicose. Qual a relação entre Dusi,
Céline e Bernhard? A princípio, sua fúria narrativa, sua musicalidade frenética
e sua perversidade que atinge níveis absurdos da lógica da honestidade são
alguns dos pontos de convergência.
Madame
Psicose é um relato com pouco mais de setenta páginas, mas cabe ao
leitor identificar seus labirintos ficcionais e não-ficcionais. Um escritor
puto da cara, cocainômano e em constante crise existencial e em abstinência
aponta para tudo e todos. Cospe impropérios contra a academia, contra o
trabalhador fodido, contra o patrão pau no cu que fode com o funcionário,
contra o lumpem proletário que fode com seu colega, contra intelectuais de
butique, contra a classe artística de Curitiba, contra os políticos, contra
quem escreve, contra quem não escreve, e o resultado é uma prosa absolutamente vertiginosa,
forte, lírica, repleta de referências que vão das fine arts à cultura
pop, perversa e, claro, com um trabalho de linguagem impressionante.
Como
boa parte dos grandes livros, um dos pontos altos de Madame Psicose é o
fato de a narrativa não se limitar a si própria, quer dizer, não sabemos se é
uma novela, um relato autobiográfico e aqui podemos pensar em outro grande
autor que sei que também é caro ao Dusi, Karl Ove Knausgard, o norueguês que
frequentemente era (de forma equivocada) comparado a Proust, e que em seis
volumes escreveu sobre suas experiências próprias, com nomes verdadeiros e
acontecimentos reais. O que lhe custou um divórcio e vários outros rompimentos
com a família.
Ser
biográfico, autobiográfico ou puramente ficcional, na verdade nada significa
desde que a prosa seja sincera, tenha potência, lirismo e linguagem; linguagem,
aliás, é o elemento mais em baixa na literatura contemporânea. Como o próprio
João repete reiteradas vezes, inclusive em sua narrativa hiperbólica de Madame
Psicose, a busca pela literatura edificante tornou-se um ponto norteador entre
escritores fofinhos e hipsters, que estão mais preocupados com celebrações
instagramáveis do que com literatura de verdade. Bem, um sonoro foda-se a eles.



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