sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O esporte mais difícil – o melhor fabbro

 



Quando T. S. Eliot afirmou que Pound era o il miglior fabbro, o mestre do mantra do Prufrock pensava nos possíveis caminhos do que viriam a se tornar o imagismo e todo o modernismo do início do século XX. A profusão das vanguardas e suas paradoxais relações de autores com o fascismo (o próprio Pound, Marinetti, Céline, Hamsun) ajudaram a tecer a colcha de retalhos do século XX com o fio de Ariadne.

Chegando em Curitiba, em 2025, um dos grandes livros de poesia que me cai em mãos é O esporte mais difícil, do poeta curitibano Raul K. Souza (Telaranha, 80 páginas). Raul K. Souza tem licenciatura em Filosofia pela PUCPR. Tem mais de dez anos de experiência no mercado do livro: foi livreiro, editor, leitor de originais e, atualmente, é gerente da Livraria Telaranha. É um dos mediadores de leitura do Clube Nara. Publicou Ligações que rasgam (Kotter, 2021), participou das antologias Antologia poética LiteraturaBr (2021), 1001 Poetas (Casa Brasileira de Livros, 2022) e Chão Brasil (Membrana Literária, 2024).

O esporte mais difícil é um livro dividido em duas partes: Uma vez no banheiro e Posição de amor. As temáticas que Raul explora no livro todo transitam entre questões do corpo, do desejo, da perda, do luto e do encontro. Os poemas de O esporte mais difícil passam muito longe da horrorosa e pavorosa palavra tão cara à poesia contemporânea, a tal da “resiliência”, quer dizer, não é um livro com respostas, muito menos com afagos, mas sim um trabalho profundo, cuidadoso, lírico e denso com o fazer poético.

O leitor de Raul nesse seu novo livro deve permanecer atento, pois os labirintos que separam prosa e poesia, ou prosa narrativa de poemas em prosa são muito tênues; e na verdade nada significam. Poesia é ritmo, é imagem, é linguagem, é símbolo. Precisamos lembrar da trindade poundiana mais uma vez? Logopeia. Melopeia. Fanopeia.

O esporte mais difícil é o livro de um autor mais maduro, mais consciente de sua poética e de como sua arte torna-se linguagem, e de como a linguagem torna-se comunicação. Por entre espaços deixados à deriva para o leitor atento, em muitos poemas nos deparamos com pequenas provocações, como enjambements que precisam de atenção redobrada, metáforas densas e referências não muito sutis. Mesmo discordando, a princípio, do título do livro, apreendi suas armadilhas e peripécias, e não poderia ser mais acertado, pois o próprio ato de viver é bastante complicado, como a ausência, como a palavra, como a linguagem.  

 


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