sábado, 8 de novembro de 2025

Agonia na Tumba: Uma Sinfonia de Sombras na Prosa de Tarcísio Pereira

 



Se a literatura é um vasto cemitério de almas e formas, então a prosa poética de Tarcísio Pereira em Agonia na Tumba é o lamento mais sublime que ecoa de suas catacumbas mais profundas. Seu labirinto metafísico é como veredas em um palácio decadente da mente, onde cada sala é um recinto da alma, mobiliado não com objetos, mas com símbolos pujantes de melancolia, angústia e uma beleza perversa que brota da própria podridão. Não se trata de um romance no sentido convencional, mas de um longo e vertiginoso mergulho em uma subjetividade em dissolução, uma experiência que evoca, com força singular, o espírito dos grandes romances simbolistas de Gonzaga Duque.

Agonia da tumba foi lançado originalmente em 1993, e foi indicado ao Prêmio Moinho Santista. Tracísio Pereira é escritor, teatrólogo, jornalista e publicitário. Paraibano, o autor nasceu em 1965, na cidade de Pombal-PB, e tem uma intensa produção literária. É autor de vários livros e já recebeu diversos prêmios literários. Nas pouco mais de cem páginas de Agonia da tumba, Pereira constrói uma narrativa psicológica, porém ágil, em meio a uma atmosfera de horror. Seus capítulos curtos funcionam como flashes sob a perspectiva desse “enterrado vivo” que, a partir da anulação telúrica, tece reflexões sem poder agir.




Assim como Duque, em Mocidade Morta, explorava os meandros de uma sensibilidade doentia e ultrarrefinada, Tarcísio Pereira constrói sua narrativa a partir de uma consciência que agoniza, confinada na "tumba" de seu próprio ser, de sua própria memória ou de um espaço físico que é a extensão de sua psique. A trama, se é que podemos chamar assim, cede lugar à atmosfera. Os eventos são substituídos por estados ontológicos, e a linguagem não descreve, mas sugere. A prosa é densa, musical e deliberadamente embaçada, como se vista através de um véu úmido de lágrimas e, junto a isso, seu registro literário também é direto, é desbocado.

O símbolo como alicerce é onde Pereira mais acerta. A "tumba" do título não é um mero local de enterro, mas elementos alegorizados multifacetados: é a mente claustrofóbica do protagonista, o corpo que o aprisiona, a sociedade que o asfixia, a tradição literária que o oprime e, por fim, o próprio livro como artefato mortal. A luz, quando aparece, é pálida, doentia, lunar, incapaz de aquecer, apenas de revelar sombras e contornos de uma realidade em decomposição. As cores são sombrias – tons de púrpura apodrecido, ouro enegrecido, o branco cadavérico de estátuas em jardins abandonados, a imagem de Elvira. 

Há uma sensualidade tanatográfica que permeia cada página, outra herança simbolista e decadentista. O prazer e a dor, o êxtase e a agonia, fundem-se em um abraço perverso. A figura feminina, quando surge, é menos uma pessoa e mais uma aparição, uma visão onírica e fatal, evocando as musas etéreas e destrutivas de um Baudelaire ou de um Álvares de Azevedo. Ela é a própria encarnação do desejo que corrói e da beleza que mata.

A linguagem de Pereira é um caleidoscópio estilístico. Cada período é cinzelado como uma joia fúnebre. As frases são longas, sinuosas, cheias de incisos e de um ritmo quase obsessivo, que imita o fluxo de consciência de um moribundo. É uma prosa para ser degustada lentamente, saboreando suas aliterações, suas imagens e seu vocabulário precioso e arcaizante ao mesmo em que se utiliza de variações coloquiais da linguagem cotidiana. O autor não tem pressa para contar; seu objetivo é fazer o leitor habitar a agonia.

Agonia na Tumba é um livro que flerta com o noir, com a narrativa de mistério. É uma experiência forte, exigente e potencialmente opressiva. Sua beleza é daquelas que cortam os dedos de quem a toca. Para o leitor acostumado às narrativas lineares e aos propósitos claros, será como caminhar por um labirinto sem saída. Mas para aqueles que se deleitam com a vertigem do abismo, com a música das palavras em estado puro e com a exploração dos limites mais sombrios da condição humana, esta obra é uma joia rara.

Tarcísio Pereira, com este livro, não apenas homenageia a tradição simbolista, mas a revive e a recria com uma voz contemporânea e autêntica. Agonia na Tumba é um funesto e deslumbrante exemplo de prosa poética, um testemunho de que a mais profunda beleza pode, e muitas vezes deve, ser encontrada na própria agonia.


Daniel Osiecki, escritor, editor e professor


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