quarta-feira, 20 de maio de 2026

RESENHA: A Sombra e o Abismo – A pústula e o cosmos: Algum Poema, de Carlos Nunes

 




É raro, na produção literária contemporânea, encontrar um autor que consiga transitar com tamanha desenvoltura entre o íntimo e o universal, entre a confissão visceral e a indagação metafísica. Carlos Nunes, em Algum Poema, consegue o feito notável de resgatar a angústia do Ultrarromantismo sem cair no mero pastiche, utilizando a chama do século XIX para iluminar as fissuras do século XXI. O livro é um mergulho num "eu" dilacerado, mas que busca incessantemente um "outro" — seja ele a amada, a morte ou a própria consciência.

A influência de Álvares de Azevedo é a mais evidente e bem trabalhada por Nunes. Assim como o autor da Lira dos Vinte Anos, o poeta contemporâneo cultiva a arte do tédio sublime e da noite interior. A tese de doutorado de Alexandre de Melo Andrade lembra que, na tradição romântica, "o Eu transcende a Natureza física", estabelecendo com ela "um entendimento interno”. Em Nunes, no entanto, essa transcendência é constantemente frustrada.

Enquanto Azevedo buscava na natureza o refúgio para o "mal do século" — a sombra das árvores, o murmúrio do vento —, Nunes parece estar preso em um quarto escuro, onde a natureza é apenas uma lembrança distante ou uma imagem na tela. Onde Azevedo ironizava o amor e a morte com uma morbidez quase jovial (pense em "Se eu morresse amanhã"), Nunes encara o vazio com uma lucidez que dói. Se há ironia em Algum Poema, ela é cínica, desencantada, fruto de um mundo que já viu todas as promessas românticas falharem. O Ultrarromantismo de Nunes é o de um sobrevivente: a chama ainda arde, mas já não ilumina o caminho; apenas queima as mãos.

Entretanto, a comparação mais instigante, e talvez a mais precisa para definir a originalidade de Nunes, é com Augusto dos Anjos. Se Azevedo fornece o tom emocional da obra, é Augusto dos Anjos quem empresta a "cara" para os monstros que habitam os versos.

Carlos Nunes compartilha com o autor de Eu a obsessão pelo cientificismo e pela degradação da matéria. Em Augusto dos Anjos, o vocabulário biológico e médico não é decorativo; ele serve para expor a "coisificação" do homem, como bem analisa Carlos Romero: "o seu léxico científico não se encontra na sua poesia como palavras aleatórias ou como mero adorno, cosmética superficial, mas com um propósito definido de entender a vida, na sua forma material”. Nunes opera de forma semelhante.

Em Algum Poema, o corpo não é apenas um templo romântico em ruínas; ele é um laboratório de falhas. As metáforas biológicas e químicas emergem nos momentos de maior tensão lírica, transformando a dor emocional em um fenômeno físico quase clínico. A grande diferença entre os dois é a direção do olhar. Augusto dos Anjos olhava para o universo e via a "coalescência" dos átomos, a certeza da decomposição cósmica. Nunes, por sua vez, parece ter internalizado essa visão de horror metafísico e a aplica às relações humanas e à solidão digital. Ele não canta a "podridão" do mundo; ele filma em slow motion a explosão de uma célula cancerosa dentro do peito.

Nunes resolve um problema que assombra a poesia contemporânea: como falar de sentimentos universais (solidão, amor, morte) sem recorrer aos clichês do passado, mas também sem abraçar uma frieza conceitual que anula a emoção? Algum Poema é a resposta. Ele pega o "tédio" de Azevedo e o transforma em burnout; pega o "verme" de Augusto dos Anjos e o transforma em algoritmo.

O eu-lírico de Algum Poema é um organismo ferido que, mesmo cego e dilacerado, ainda se move em direção a um clarão. Mesmo ciente da escuridão cósmica (herdada de Augusto dos Anjos) e da fragilidade do corpo (herdada de Azevedo), o poema insiste em existir.

Em suma, Algum Poema é uma obra corajosa. Carlos Nunes não se contenta em imitar os gigantes; ele os convoca para um duelo no território pantanoso do presente. O resultado é uma poesia que fere, que incomoda, mas que, acima de tudo, respira — mesmo que com a asfixia característica de quem acabou de emergir de um quarto escuro e se deparou com a luz crua da realidade.

domingo, 17 de maio de 2026

RESENHA - A Poesia como Desabrigo: Uma Resenha de Protagonismo do Absurdo e outros poemas, de Rafael Walter

 



    Na contramão de uma poesia líquida e descartável que muitas vezes domina as redes, a obra do curitibano Rafael Walter se impõe como um murro na mesa — ou melhor, como um traço incerto de giz no asfalto. Em Protagonismo do Absurdo e outros poemas, Walter consolida uma estética que transita com desenvoltura (e certo desdém) entre o lodo do submundo curitibano e as constelações da alta cultura. Trata-se de uma obra visceral, que exige do leitor não apenas a razão, mas a coragem de sujar os sapatos na poeira da rua.

    A grande virtude de Walter é sua capacidade de erodir a linguagem sem perder o controle técnico. Seus versos frequentemente abandonam o lirismo açucarado em favor de uma precisão quase cirúrgica, ainda que aplicada a temas prosaicos ou degradados. Em poemas que flertam com a escatologia, encontramos a perfeita síntese de sua poética.

    Essa tessitura ecoa a poesia marginal dos anos 1970, mas sem o saudosismo festivo de um Chacrinha ou a genialidade hermética de um Waly Salomão. Walter é mais soturno. Ele parece herdar de Paulo Leminski capacidade de aludir a detalhes precisos do entorno, mas adiciona a isso um filtro.

    O título da obra não é gratuito. Walter confere ao absurdo um protagonismo raramente visto na poesia brasileira contemporânea. Não se trata do absurdo teatral de Ionesco, mas de um absurdo cotidiano, quase camusiano: a dúvida como morada. Em um de seus poemas, o eu-lírico recusa a certeza e prefere a dúvida "expandida em caos e absoluto". Essa postura é a espinha dorsal do livro.

    O sujeito poético de Walter é um andarilho metafísico que "andava torto feito um ponto de interrogação" para tentar endireitar os caminhos tortos da cidade . A referência a Curitiba — a "cidade cinza" do Sul — é difusa, mas palpável. Sentimos o frio cortar os versos, o asfalto úmido e a indiferença dos centros urbanos. Ao mesmo tempo ele revisita os clássicos com a familiaridade de quem os leu de tanto ficar acordado à noite em um barraco no litoral paranaense ou durante sua temporada na Argentina.

    Um dos maiores acertos de Walter é sua desmontagem da hierarquia cultural. O poeta é professor de literatura, especialista em Alejandra Pizarnik (cuja melancolia lúcida ecoa em seus versos) e militante político. No entanto, sua poesia insiste em olhar para "os poucos centavos no bolso" e para o "vício de saliva". Não há vergonha na pobreza material ou vocabular; há, sim, uma dignidade feroz.

    Essa dualidade fica evidente na construção de suas imagens. Ele consegue unir a sofisticação do haicai japonês à matéria fecal do "escatológico". Ele trata o corpo como vestígio, o pensamento como destroço. A coletânea anterior do autor já sinalizava essa trajetória com títulos como Palavra sem teto e Detritos e destroços. Protagonismo do Absurdo parece ser o ponto de maturação dessa jornada: a palavra não tem onde cair morta, então ela dança no vazio.

    Ler Rafael Walter é como caminhar por um terreno baldio em uma noite de geada. Há beleza no desconforto, e há música no rangido dos portões enferrujados. A crítica que se pode fazer à obra é, talvez, sua recusa ocasional ao acabamento — há momentos em que o "absurdo" serve mais como álibi para a interrupção do que como escolha estética orgânica. Em raros trechos, a voz do eu-lírico se perde em sua própria névoa existencial, deixando o leitor menos instigado.

    No entanto, esses momentos são exceção. Protagonismo do Absurdo é um retrato necessário da nova poesia paranaense, que tem no sangue a rebeldia dos "maradigmas" e na alma o rigor dos clássicos. Walter nos lembra que a poesia de verdade não mora nas antologias bem-comportadas; ela mora na rua, no escarro e no silêncio que segue o caos. Para quem está cansado do mesmo, este livro é um soco bem dado no estômago da poesia contemporânea — daqueles que tiram o fôlego, mas que nos fazem sentir vivos.