RESENHA - A Poesia como Desabrigo: Uma Resenha de Protagonismo do Absurdo e outros poemas, de Rafael Walter
Na contramão de uma poesia líquida e descartável que muitas vezes domina as redes, a obra do curitibano Rafael Walter se impõe como um murro na mesa — ou melhor, como um traço incerto de giz no asfalto. Em Protagonismo do Absurdo e outros poemas, Walter consolida uma estética que transita com desenvoltura (e certo desdém) entre o lodo do submundo curitibano e as constelações da alta cultura. Trata-se de uma obra visceral, que exige do leitor não apenas a razão, mas a coragem de sujar os sapatos na poeira da rua.
A grande virtude de Walter é sua
capacidade de erodir a linguagem sem perder o controle técnico. Seus versos
frequentemente abandonam o lirismo açucarado em favor de uma precisão quase
cirúrgica, ainda que aplicada a temas prosaicos ou degradados. Em poemas que
flertam com a escatologia, encontramos a perfeita síntese de sua poética.
Essa tessitura ecoa a poesia
marginal dos anos 1970, mas sem o saudosismo festivo de um Chacrinha ou a
genialidade hermética de um Waly Salomão. Walter é mais soturno. Ele parece
herdar de Paulo Leminski capacidade de aludir a detalhes precisos do entorno,
mas adiciona a isso um filtro.
O título da obra não é gratuito.
Walter confere ao absurdo um protagonismo raramente visto na poesia brasileira
contemporânea. Não se trata do absurdo teatral de Ionesco, mas de um absurdo
cotidiano, quase camusiano: a dúvida como morada. Em um de seus poemas, o
eu-lírico recusa a certeza e prefere a dúvida "expandida em caos e
absoluto". Essa postura é a espinha dorsal do livro.
O sujeito poético de Walter é um
andarilho metafísico que "andava torto feito um ponto de
interrogação" para tentar endireitar os caminhos tortos da cidade . A
referência a Curitiba — a "cidade cinza" do Sul — é difusa, mas
palpável. Sentimos o frio cortar os versos, o asfalto úmido e a indiferença dos
centros urbanos. Ao mesmo tempo ele revisita os clássicos com a familiaridade
de quem os leu de tanto ficar acordado à noite em um barraco no litoral
paranaense ou durante sua temporada na Argentina.
Um dos maiores acertos de Walter
é sua desmontagem da hierarquia cultural. O poeta é professor de literatura,
especialista em Alejandra Pizarnik (cuja melancolia lúcida ecoa em seus versos)
e militante político. No entanto, sua poesia insiste em olhar para "os
poucos centavos no bolso" e para o "vício de saliva". Não há
vergonha na pobreza material ou vocabular; há, sim, uma dignidade feroz.
Essa dualidade fica evidente na
construção de suas imagens. Ele consegue unir a sofisticação do haicai japonês
à matéria fecal do "escatológico". Ele trata o corpo como vestígio, o
pensamento como destroço. A coletânea anterior do autor já sinalizava essa
trajetória com títulos como Palavra sem teto e Detritos e destroços.
Protagonismo do Absurdo parece ser o ponto de maturação dessa jornada: a
palavra não tem onde cair morta, então ela dança no vazio.
Ler Rafael Walter é como
caminhar por um terreno baldio em uma noite de geada. Há beleza no desconforto,
e há música no rangido dos portões enferrujados. A crítica que se pode fazer à
obra é, talvez, sua recusa ocasional ao acabamento — há momentos em que o
"absurdo" serve mais como álibi para a interrupção do que como
escolha estética orgânica. Em raros trechos, a voz do eu-lírico se perde em sua
própria névoa existencial, deixando o leitor menos instigado.
No entanto, esses momentos são
exceção. Protagonismo do Absurdo é um retrato necessário da nova poesia
paranaense, que tem no sangue a rebeldia dos "maradigmas" e na alma o
rigor dos clássicos. Walter nos lembra que a poesia de verdade não mora nas
antologias bem-comportadas; ela mora na rua, no escarro e no silêncio que segue
o caos. Para quem está cansado do mesmo, este livro é um soco bem dado no
estômago da poesia contemporânea — daqueles que tiram o fôlego, mas que nos
fazem sentir vivos.



0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial