domingo, 17 de maio de 2026

RESENHA - A Poesia como Desabrigo: Uma Resenha de Protagonismo do Absurdo e outros poemas, de Rafael Walter

 



    Na contramão de uma poesia líquida e descartável que muitas vezes domina as redes, a obra do curitibano Rafael Walter se impõe como um murro na mesa — ou melhor, como um traço incerto de giz no asfalto. Em Protagonismo do Absurdo e outros poemas, Walter consolida uma estética que transita com desenvoltura (e certo desdém) entre o lodo do submundo curitibano e as constelações da alta cultura. Trata-se de uma obra visceral, que exige do leitor não apenas a razão, mas a coragem de sujar os sapatos na poeira da rua.

    A grande virtude de Walter é sua capacidade de erodir a linguagem sem perder o controle técnico. Seus versos frequentemente abandonam o lirismo açucarado em favor de uma precisão quase cirúrgica, ainda que aplicada a temas prosaicos ou degradados. Em poemas que flertam com a escatologia, encontramos a perfeita síntese de sua poética.

    Essa tessitura ecoa a poesia marginal dos anos 1970, mas sem o saudosismo festivo de um Chacrinha ou a genialidade hermética de um Waly Salomão. Walter é mais soturno. Ele parece herdar de Paulo Leminski capacidade de aludir a detalhes precisos do entorno, mas adiciona a isso um filtro.

    O título da obra não é gratuito. Walter confere ao absurdo um protagonismo raramente visto na poesia brasileira contemporânea. Não se trata do absurdo teatral de Ionesco, mas de um absurdo cotidiano, quase camusiano: a dúvida como morada. Em um de seus poemas, o eu-lírico recusa a certeza e prefere a dúvida "expandida em caos e absoluto". Essa postura é a espinha dorsal do livro.

    O sujeito poético de Walter é um andarilho metafísico que "andava torto feito um ponto de interrogação" para tentar endireitar os caminhos tortos da cidade . A referência a Curitiba — a "cidade cinza" do Sul — é difusa, mas palpável. Sentimos o frio cortar os versos, o asfalto úmido e a indiferença dos centros urbanos. Ao mesmo tempo ele revisita os clássicos com a familiaridade de quem os leu de tanto ficar acordado à noite em um barraco no litoral paranaense ou durante sua temporada na Argentina.

    Um dos maiores acertos de Walter é sua desmontagem da hierarquia cultural. O poeta é professor de literatura, especialista em Alejandra Pizarnik (cuja melancolia lúcida ecoa em seus versos) e militante político. No entanto, sua poesia insiste em olhar para "os poucos centavos no bolso" e para o "vício de saliva". Não há vergonha na pobreza material ou vocabular; há, sim, uma dignidade feroz.

    Essa dualidade fica evidente na construção de suas imagens. Ele consegue unir a sofisticação do haicai japonês à matéria fecal do "escatológico". Ele trata o corpo como vestígio, o pensamento como destroço. A coletânea anterior do autor já sinalizava essa trajetória com títulos como Palavra sem teto e Detritos e destroços. Protagonismo do Absurdo parece ser o ponto de maturação dessa jornada: a palavra não tem onde cair morta, então ela dança no vazio.

    Ler Rafael Walter é como caminhar por um terreno baldio em uma noite de geada. Há beleza no desconforto, e há música no rangido dos portões enferrujados. A crítica que se pode fazer à obra é, talvez, sua recusa ocasional ao acabamento — há momentos em que o "absurdo" serve mais como álibi para a interrupção do que como escolha estética orgânica. Em raros trechos, a voz do eu-lírico se perde em sua própria névoa existencial, deixando o leitor menos instigado.

    No entanto, esses momentos são exceção. Protagonismo do Absurdo é um retrato necessário da nova poesia paranaense, que tem no sangue a rebeldia dos "maradigmas" e na alma o rigor dos clássicos. Walter nos lembra que a poesia de verdade não mora nas antologias bem-comportadas; ela mora na rua, no escarro e no silêncio que segue o caos. Para quem está cansado do mesmo, este livro é um soco bem dado no estômago da poesia contemporânea — daqueles que tiram o fôlego, mas que nos fazem sentir vivos.

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