RESENHA - A Humanização do Mito: As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi e a luta por uma representação séria no cotidiano da morte
Rodrigo Leonardi, em As Últimas Horas, propõe um exercício literário de alto risco e fascínio: reconstruir, através da ficção, os momentos finais de ícones da cultura pop. Ao eleger figuras como Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse e outros, o autor não busca a biografia factual ou o sensacionalismo jornalístico. Seu projeto é mais ambicioso e essencialmente literário — ele tenta humanizar o mito, mergulhando na subjetividade, na solidão e na degradação que antecedem o desfecho trágico. É justamente nesse ponto que a obra de Leonardi encontra um diálogo profundo — ainda que possivelmente não intencional — com as questões fundamentais levantadas por Erich Auerbach em sua obra-prima, Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental.
A
premissa do livro é magneticamente sedutora. Leonardi desloca o foco do
espetáculo da morte — tão explorado pela mídia e pelo imaginário popular — para
a experiência interior que a precede. São contos que funcionam como mergulhos
subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas. O estilo do autor,
frequentemente lírico e sensorial, busca capturar não os fatos, mas os estados
de espírito: a angústia, a névoa química das drogas, o cansaço extremo de
existir sob o peso da fama, o diálogo interno torturado entre a pessoa e o
personagem público.
Essa
abordagem é o grande acerto do livro. Ao tentar narrar a
"dissonância" entre a dor íntima e o palco global, Leonardi confere
dignidade a essas figuras, tratando-as não como símbolos, mas como pessoas
frágeis, confusas e à deriva. O leitor é convidado a um pacto de ficção que
permite a empatia, afastando-se da mera curiosidade mórbida.
Para
compreender a magnitude e as armadilhas desse projeto, a teoria de Erich
Auerbach é uma ferramenta indispensável. Em Mimesis, Auerbach traça uma
história da representação do real no ocidente, partindo de uma dicotomia
fundamental. De um lado, o estilo homérico (presente na Odisseia), que
trata os fenômenos de forma totalmente externalizada, uniforme e sem
profundidades, mantendo tudo em um "primeiro plano" brilhante e legendário.
De outro, o estilo bíblico (presente no Antigo Testamento), que é repleto de
"segundos planos", sugestões do não-dito, multiplicidade de
significados e, crucialmente, a representação séria de figuras cotidianas e
problemáticas.
Para
Auerbach, a grande virada na literatura ocidental é a ruptura com a antiga
"doutrina dos níveis de estilo", que reservava o tratamento trágico e
sério apenas às classes altas e aos grandes feitos, relegando o povo e o
cotidiano ao estilo cômico ou baixo. A tradição bíblica, ao narrar o drama de
pessoas comuns diante do divino, e posteriormente a literatura cristã, com o
modelo da sublimitas e humilitas de Cristo, criaram as bases para o que
Auerbach chama de "realismo moderno": a capacidade de tratar o
cotidiano, o popular e o trivial com a mais profunda seriedade e tragédia . É
essa tradição que permite a Flaubert, Stendhal, Proust e Woolf a imersão na
psicologia de personagens comuns, revelando a historicidade e a profundidade de
suas existências.
É
sob essa luz que As Últimas Horas deve ser lido. Leonardi enfrenta um
desafio que é o reverso da moeda do processo histórico descrito por Auerbach.
Ele não precisa elevar o comum ao trágico; seu ponto de partida é o
"herói" trágico, a figura elevada pelo mito pop. Sua tarefa é fazê-la
descer ao solo da condição humana, revelar o "segundo plano" que a
tradição homérica da fama insiste em ocultar.
Nesse
sentido, a obra é profundamente auerbachiana. Ao focar no momento de colapso —
na solidão de um quarto de hotel, no delírio de uma overdose, no cansaço
extremo — Leonardi aplica o "tratamento sério" não a um rei ou
guerreiro, mas a roqueiros e estrelas. Ele os insere no que Auerbach chamaria
de "realismo profundo", preocupado com o "devir histórico"
e a complexidade psicológica do indivíduo .
O
conto sobre Jim Morrison, por exemplo, ao evocá-lo mais como
"filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de
palco" , é uma tentativa de escavar as camadas soterradas pelo mito. É a
busca pela verdade interior, pela "multiplicidade de significados"
que a imagem pública unidimensional tende a achatar. A linguagem lírica e
sensorial de Leonardi, carregada de imagens de "textura" e "luz
embaçada”, funciona como uma ferramenta para criar essa atmosfera de
"fundo", esse espaço de sugestão onde o drama íntimo pode,
finalmente, ser narrado com a seriedade que a tragédia humana exige.
Se,
por um lado, a obra dialoga com a conquista do realismo moderno, por outro, ela
expõe as fraturas e os limites desse processo. O principal risco apontado pela
crítica — e sentido na leitura — é a tendência a recorrer a "lugares-comuns
sobre o preço da fama e o artista torturado". Aqui, a representação ameaça
desabar sobre si mesma.
Quando
a narrativa escorrega para o clichê, ela abandona a complexidade bíblica e
retorna, ainda que brevemente, a uma forma de mitificação. O "artista
torturado" é, ele próprio, um mito moderno, um novo nível de estilo que
uniformiza a experiência individual de Kurt Cobain e Janis Joplin sob o mesmo
rótulo. Auerbach valorizava a capacidade de cada texto revelar o "devir
histórico" único de seus personagens. O perigo que As Últimas Horas
corre é o de, ao tentar humanizar o mito, acabar criando um meta-mito — o da
"morte trágica e romântica" — que unifica e apaga as individualidades
que pretende explorar. A morte aos 27 anos, que deveria ser um dado biográfico,
ameaça tornar-se o princípio organizador da narrativa, um fator estético que
nivela as diferenças e compromete a profundidade psicológica.
Além
disso, a própria escolha do momento da morte, se não for executada com o máximo
de rigor e distanciamento crítico, pode resvalar para a exploração do
espetáculo. Auerbach alertava para a diferença entre a mera "descrição
externalizada" (homérica) e a representação que carrega
"história" e "problema" (bíblica). O grande triunfo de
Leonardi é tentar a segunda via; seu desafio é não permitir que a potência
trágica do fim se transforme em um novo e brilhante "primeiro plano"
que ofusca a complexidade da vida que o antecedeu.
As
Últimas Horas é um livro que se sustenta na tensão
entre a epopeia da fama e a tragicomédia da existência. Rodrigo Leonardi
realiza um trabalho corajoso e, em muitos momentos, bem-sucedido, ao dar forma
literária a um fascínio cultural contemporâneo, aplicando um tratamento sério e
intimista a figuras consumidas como lendas. Vista pela lente de Erich Auerbach,
a obra é um experimento fascinante de "realismo moderno" aplicado ao
mito pop, uma tentativa de escavar os "segundos planos" da existência
de ídolos cujas vidas foram vividas em um palco sem bastidores. Se
eventualmente tropeça nos próprios clichês que tenta combater e se a
"morte" unifica mais do que deveria, o livro oferece momentos de
verdadeira potência narrativa, mas, ao fazer isso, reafirma a eterna e complexa
luta da literatura para representar, com seriedade, a realidade do sofrimento
humano.


