quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

RESENHA - A Humanização do Mito: As Últimas Horas, de Rodrigo Leonardi e a luta por uma representação séria no cotidiano da morte

 




Rodrigo Leonardi, em As Últimas Horas, propõe um exercício literário de alto risco e fascínio: reconstruir, através da ficção, os momentos finais de ícones da cultura pop. Ao eleger figuras como Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winehouse e outros, o autor não busca a biografia factual ou o sensacionalismo jornalístico. Seu projeto é mais ambicioso e essencialmente literário — ele tenta humanizar o mito, mergulhando na subjetividade, na solidão e na degradação que antecedem o desfecho trágico. É justamente nesse ponto que a obra de Leonardi encontra um diálogo profundo — ainda que possivelmente não intencional — com as questões fundamentais levantadas por Erich Auerbach em sua obra-prima, Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental.

A premissa do livro é magneticamente sedutora. Leonardi desloca o foco do espetáculo da morte — tão explorado pela mídia e pelo imaginário popular — para a experiência interior que a precede. São contos que funcionam como mergulhos subjetivos, aproximações psicológicas e atmosféricas. O estilo do autor, frequentemente lírico e sensorial, busca capturar não os fatos, mas os estados de espírito: a angústia, a névoa química das drogas, o cansaço extremo de existir sob o peso da fama, o diálogo interno torturado entre a pessoa e o personagem público.

Essa abordagem é o grande acerto do livro. Ao tentar narrar a "dissonância" entre a dor íntima e o palco global, Leonardi confere dignidade a essas figuras, tratando-as não como símbolos, mas como pessoas frágeis, confusas e à deriva. O leitor é convidado a um pacto de ficção que permite a empatia, afastando-se da mera curiosidade mórbida.

Para compreender a magnitude e as armadilhas desse projeto, a teoria de Erich Auerbach é uma ferramenta indispensável. Em Mimesis, Auerbach traça uma história da representação do real no ocidente, partindo de uma dicotomia fundamental. De um lado, o estilo homérico (presente na Odisseia), que trata os fenômenos de forma totalmente externalizada, uniforme e sem profundidades, mantendo tudo em um "primeiro plano" brilhante e legendário. De outro, o estilo bíblico (presente no Antigo Testamento), que é repleto de "segundos planos", sugestões do não-dito, multiplicidade de significados e, crucialmente, a representação séria de figuras cotidianas e problemáticas.

Para Auerbach, a grande virada na literatura ocidental é a ruptura com a antiga "doutrina dos níveis de estilo", que reservava o tratamento trágico e sério apenas às classes altas e aos grandes feitos, relegando o povo e o cotidiano ao estilo cômico ou baixo. A tradição bíblica, ao narrar o drama de pessoas comuns diante do divino, e posteriormente a literatura cristã, com o modelo da sublimitas e humilitas de Cristo, criaram as bases para o que Auerbach chama de "realismo moderno": a capacidade de tratar o cotidiano, o popular e o trivial com a mais profunda seriedade e tragédia . É essa tradição que permite a Flaubert, Stendhal, Proust e Woolf a imersão na psicologia de personagens comuns, revelando a historicidade e a profundidade de suas existências.

É sob essa luz que As Últimas Horas deve ser lido. Leonardi enfrenta um desafio que é o reverso da moeda do processo histórico descrito por Auerbach. Ele não precisa elevar o comum ao trágico; seu ponto de partida é o "herói" trágico, a figura elevada pelo mito pop. Sua tarefa é fazê-la descer ao solo da condição humana, revelar o "segundo plano" que a tradição homérica da fama insiste em ocultar.

Nesse sentido, a obra é profundamente auerbachiana. Ao focar no momento de colapso — na solidão de um quarto de hotel, no delírio de uma overdose, no cansaço extremo — Leonardi aplica o "tratamento sério" não a um rei ou guerreiro, mas a roqueiros e estrelas. Ele os insere no que Auerbach chamaria de "realismo profundo", preocupado com o "devir histórico" e a complexidade psicológica do indivíduo .

O conto sobre Jim Morrison, por exemplo, ao evocá-lo mais como "filósofo-poeta perdido em seus próprios labirintos do que o animal de palco" , é uma tentativa de escavar as camadas soterradas pelo mito. É a busca pela verdade interior, pela "multiplicidade de significados" que a imagem pública unidimensional tende a achatar. A linguagem lírica e sensorial de Leonardi, carregada de imagens de "textura" e "luz embaçada”, funciona como uma ferramenta para criar essa atmosfera de "fundo", esse espaço de sugestão onde o drama íntimo pode, finalmente, ser narrado com a seriedade que a tragédia humana exige.

Se, por um lado, a obra dialoga com a conquista do realismo moderno, por outro, ela expõe as fraturas e os limites desse processo. O principal risco apontado pela crítica — e sentido na leitura — é a tendência a recorrer a "lugares-comuns sobre o preço da fama e o artista torturado". Aqui, a representação ameaça desabar sobre si mesma.

Quando a narrativa escorrega para o clichê, ela abandona a complexidade bíblica e retorna, ainda que brevemente, a uma forma de mitificação. O "artista torturado" é, ele próprio, um mito moderno, um novo nível de estilo que uniformiza a experiência individual de Kurt Cobain e Janis Joplin sob o mesmo rótulo. Auerbach valorizava a capacidade de cada texto revelar o "devir histórico" único de seus personagens. O perigo que As Últimas Horas corre é o de, ao tentar humanizar o mito, acabar criando um meta-mito — o da "morte trágica e romântica" — que unifica e apaga as individualidades que pretende explorar. A morte aos 27 anos, que deveria ser um dado biográfico, ameaça tornar-se o princípio organizador da narrativa, um fator estético que nivela as diferenças e compromete a profundidade psicológica.

Além disso, a própria escolha do momento da morte, se não for executada com o máximo de rigor e distanciamento crítico, pode resvalar para a exploração do espetáculo. Auerbach alertava para a diferença entre a mera "descrição externalizada" (homérica) e a representação que carrega "história" e "problema" (bíblica). O grande triunfo de Leonardi é tentar a segunda via; seu desafio é não permitir que a potência trágica do fim se transforme em um novo e brilhante "primeiro plano" que ofusca a complexidade da vida que o antecedeu.

As Últimas Horas é um livro que se sustenta na tensão entre a epopeia da fama e a tragicomédia da existência. Rodrigo Leonardi realiza um trabalho corajoso e, em muitos momentos, bem-sucedido, ao dar forma literária a um fascínio cultural contemporâneo, aplicando um tratamento sério e intimista a figuras consumidas como lendas. Vista pela lente de Erich Auerbach, a obra é um experimento fascinante de "realismo moderno" aplicado ao mito pop, uma tentativa de escavar os "segundos planos" da existência de ídolos cujas vidas foram vividas em um palco sem bastidores. Se eventualmente tropeça nos próprios clichês que tenta combater e se a "morte" unifica mais do que deveria, o livro oferece momentos de verdadeira potência narrativa, mas, ao fazer isso, reafirma a eterna e complexa luta da literatura para representar, com seriedade, a realidade do sofrimento humano.