terça-feira, 18 de novembro de 2025

Salens - Uma Saga de Fantasia Brasileira com Luz e Sombra


 

Salens, do escritor Nicolas V. da Roza, emerge no cenário da fantasia nacional como um projeto ambicioso, uma tentativa corajosa de esculpir um épico à altura dos grandes nomes do gênero. A obra promete um mundo complexo, magia intrincada e um elenco vasto de personagens, convidando o leitor a mergulhar em suas profundezas. Após a leitura, a impressão que fica é a de um diamante bruto: de valor inegável e com lampejos de brilho intenso, mas que ainda requer um polimento final para cintilar com todo o seu potencial.

O Mundo e a Magia: Os Pilares da Obra

O maior trunfo de Salens reside, sem dúvida, na sua construção mundial. Nicolas V. da Roza demonstra uma imaginação fértil ao criar o reino de Salens, com sua geografia, história, culturas e sistemas de magia próprios. O sistema mágico, em particular, é um dos elementos mais bem desenvolvidos. Longe de ser uma ferramenta conveniente, ele apresenta regras, limitações e custos, adicionando uma camada de estratégia e consequência que é essencial para uma boa fantasia. A sensação é de que o autor conhece cada detalhe do seu universo, desde os tratados políticos entre as casas nobres até a mitologia por trás da magia mais obscura. Esse cuidado confere uma solidez e uma imersão que irão agradar profundamente aos fãs de worldbuilding denso, como o visto em  A Roda do Tempo ou O Senhor dos Anéis.

Onde a obra encontra seus maiores desafios é na execução da sua narrativa. A ambição de contar uma história de proporções épicas, com múltiplos pontos de vista e tramas políticas entrelaçadas, é nobre, mas acaba se tornando uma faca de dois gumes. O ritmo, especialmente na primeira metade do livro, é frequentemente lento e fragmentado. A introdução de um número muito grande de personagens e cenários em um curto espaço de tempo pode ser avassaladora e, por vezes, confusa, dificultando que o leitor crie um vínculo imediato com a trama principal.

Os personagens, por sua vez, são um conjunto eclético. Alguns se destacam por seus arcos bem delineados e motivações complexas, mostrando evolução e profundidade psicológica. No entanto, outros podem soar um pouco planos ou como arquétipos conhecidos do gênero (o herói relutante, o mentor sábio, a guerreira ferina). O desenvolvimento, por vezes, é sacrificado em prol da necessidade de mover as peças do grande tabuleiro de Salens. Um foco mais restrito em um grupo central menor poderia ter aprofundado a conexão emocional, sem abrir mão da grandiosidade do conjunto.

A escrita de Nicolas V. da Roza é elaborada e rica em descrições, o que contribui para a construção da atmosfera do mundo. No entanto, em certos momentos, a prosa pode se tornar densa e um pouco prolixa, com diálogos que soam mais expositivos do que naturais. Há passagens onde a mostra poderia substituir vantajosamente a contação, permitindo que o leitor descubra os segredos do mundo pela ação e subtexto, em vez de longas explicações. Este é um desafio comum em sagas de fantasia, e um ajuste no equilíbrio entre descrição, diálogo e ação poderia tornar o fluxo da narrativa mais fluido e cativante.

Salens não é uma leitura fácil ou casual. É um compromisso, um convite para um leitor paciente e disposto a navegar por um oceano de detalhes e tramas complexas. A obra padece de alguns dos problemas clássicos de uma estreia ambiciosa em um universo próprio: o excesso de informação e uma certa inconstância no ritmo.

No entanto, seria uma injustiça não reconhecer o trabalho monumental por trás do livro. Nicolas V. da Roza planta as sementes de uma saga que tem potencial para se tornar algo notável na fantasia brasileira. A base está lá: um mundo vivo, um sistema mágico interessante e conflitos que prometem se intensificar.

Recomendo Salens principalmente para os aficionados em fantasia épica, que apreciam a construção de mundos acima de tudo e não se importam em investir tempo e paciência no estabelecimento de uma série. Se o autor aprimorar o foco narrativo e a fluidez da prosa nos próximos volumes, Salens tem todas as credenciais para evoluir de um diamante em bruto para uma joia cintilante no cenário literário.


Daniel Osiecki, professor, editor e escritor

sábado, 8 de novembro de 2025

Agonia na Tumba: Uma Sinfonia de Sombras na Prosa de Tarcísio Pereira

 



Se a literatura é um vasto cemitério de almas e formas, então a prosa poética de Tarcísio Pereira em Agonia na Tumba é o lamento mais sublime que ecoa de suas catacumbas mais profundas. Seu labirinto metafísico é como veredas em um palácio decadente da mente, onde cada sala é um recinto da alma, mobiliado não com objetos, mas com símbolos pujantes de melancolia, angústia e uma beleza perversa que brota da própria podridão. Não se trata de um romance no sentido convencional, mas de um longo e vertiginoso mergulho em uma subjetividade em dissolução, uma experiência que evoca, com força singular, o espírito dos grandes romances simbolistas de Gonzaga Duque.

Agonia da tumba foi lançado originalmente em 1993, e foi indicado ao Prêmio Moinho Santista. Tracísio Pereira é escritor, teatrólogo, jornalista e publicitário. Paraibano, o autor nasceu em 1965, na cidade de Pombal-PB, e tem uma intensa produção literária. É autor de vários livros e já recebeu diversos prêmios literários. Nas pouco mais de cem páginas de Agonia da tumba, Pereira constrói uma narrativa psicológica, porém ágil, em meio a uma atmosfera de horror. Seus capítulos curtos funcionam como flashes sob a perspectiva desse “enterrado vivo” que, a partir da anulação telúrica, tece reflexões sem poder agir.




Assim como Duque, em Mocidade Morta, explorava os meandros de uma sensibilidade doentia e ultrarrefinada, Tarcísio Pereira constrói sua narrativa a partir de uma consciência que agoniza, confinada na "tumba" de seu próprio ser, de sua própria memória ou de um espaço físico que é a extensão de sua psique. A trama, se é que podemos chamar assim, cede lugar à atmosfera. Os eventos são substituídos por estados ontológicos, e a linguagem não descreve, mas sugere. A prosa é densa, musical e deliberadamente embaçada, como se vista através de um véu úmido de lágrimas e, junto a isso, seu registro literário também é direto, é desbocado.

O símbolo como alicerce é onde Pereira mais acerta. A "tumba" do título não é um mero local de enterro, mas elementos alegorizados multifacetados: é a mente claustrofóbica do protagonista, o corpo que o aprisiona, a sociedade que o asfixia, a tradição literária que o oprime e, por fim, o próprio livro como artefato mortal. A luz, quando aparece, é pálida, doentia, lunar, incapaz de aquecer, apenas de revelar sombras e contornos de uma realidade em decomposição. As cores são sombrias – tons de púrpura apodrecido, ouro enegrecido, o branco cadavérico de estátuas em jardins abandonados, a imagem de Elvira. 

Há uma sensualidade tanatográfica que permeia cada página, outra herança simbolista e decadentista. O prazer e a dor, o êxtase e a agonia, fundem-se em um abraço perverso. A figura feminina, quando surge, é menos uma pessoa e mais uma aparição, uma visão onírica e fatal, evocando as musas etéreas e destrutivas de um Baudelaire ou de um Álvares de Azevedo. Ela é a própria encarnação do desejo que corrói e da beleza que mata.

A linguagem de Pereira é um caleidoscópio estilístico. Cada período é cinzelado como uma joia fúnebre. As frases são longas, sinuosas, cheias de incisos e de um ritmo quase obsessivo, que imita o fluxo de consciência de um moribundo. É uma prosa para ser degustada lentamente, saboreando suas aliterações, suas imagens e seu vocabulário precioso e arcaizante ao mesmo em que se utiliza de variações coloquiais da linguagem cotidiana. O autor não tem pressa para contar; seu objetivo é fazer o leitor habitar a agonia.

Agonia na Tumba é um livro que flerta com o noir, com a narrativa de mistério. É uma experiência forte, exigente e potencialmente opressiva. Sua beleza é daquelas que cortam os dedos de quem a toca. Para o leitor acostumado às narrativas lineares e aos propósitos claros, será como caminhar por um labirinto sem saída. Mas para aqueles que se deleitam com a vertigem do abismo, com a música das palavras em estado puro e com a exploração dos limites mais sombrios da condição humana, esta obra é uma joia rara.

Tarcísio Pereira, com este livro, não apenas homenageia a tradição simbolista, mas a revive e a recria com uma voz contemporânea e autêntica. Agonia na Tumba é um funesto e deslumbrante exemplo de prosa poética, um testemunho de que a mais profunda beleza pode, e muitas vezes deve, ser encontrada na própria agonia.


Daniel Osiecki, escritor, editor e professor