sexta-feira, 3 de julho de 2026

Resenha: Quintares, de Hamilton Faria – A Poesia como Retorno à Casa e à Memória


 

A poesia de Hamilton Faria, conforme já se verificava em obras como Encântaros (1995), sempre se caracterizou por um profundo compromisso com a vida e com a palavra, utilizando o fazer poético como um instrumento dialógico e de reinvenção do mundo . Em Quintares (84 páginas, Vespeiro Edições, 2026), essa vocação se mantém, mas assume uma tonalidade mais intimista, mergulhando nas águas cristalinas da infância e da memória para construir uma obra de beleza serena e comovente.

O título, Quintares, já anuncia uma poética da essência e do essencial. Remete ao "quintal", espaço doméstico e afetivo por excelência, o primeiro universo que a criança descobre e nomeia. É nesse território de afetos primordiais que o poeta finca sua escrita, transformando cada poema curto em uma pequena lâmina de luz capaz de iluminar o tempo passado.

Diferentemente da exuberância criadora de Encântaros, onde o poeta se via como um demiurgo a dar nomes às coisas numa atitude de fundação do mundo ("Deu-me a poesia o dom / de em palavras transmutar-me"), em Quintares a voz lírica parece mais recolhida. A tessitura poética é deliberadamente leve, como quem não deseja perturbar a delicadeza das lembranças, mas apenas capturá-las em sua transparência. A poesia aqui não se impõe; ela murmura, sussurra segredos de um tempo em que o mundo cabia nos limites de uma casa.

Essa leveza, no entanto, não implica superficialidade. Assim como o poeta de Encântaros compreendia que a criação poética é uma centelha da Criação divina e que a poesia é uma forma de "almar-se" , em Quintares o exercício de memória assume um caráter quase sagrado. Os poemas curtos funcionam como pequenos cântaros que recolhem a água pura das reminiscências, num movimento que ecoa a busca por autodefinição presente em partes de sua obra anterior, como "Memorial" . O eu-lírico não se define por grandes feitos ou reflexões abstratas, mas pela constelação de pequenos gestos, imagens e cheiros do passado.

A poética telúrica, tão cara a Hamilton Faria, ganha aqui uma dimensão mais doméstica e íntima. A terra não é mais apenas o elemento cósmico ou o "páramo" de onde se arranca a palavra ; ela é o chão do quintal, a horta, a lama dos dias de chuva, o contato físico com um mundo que se sabe finito. Essa materialidade é o alicerce sobre o qual a memória constrói suas imagens, e é por meio dela que o poeta consegue tornar palpável a passagem do tempo, um tema que sempre o inquietou, como se vê em seus questionamentos sobre a temporalidade .

Entretanto, a beleza cristalina de Quintares não esconde uma melancolia sutil. Se o poeta retorna à infância, é porque sabe que ela é, por definição, um país perdido. A leveza dos versos, nesse sentido, é também uma forma de lidar com a perda, de transformar a ausência em presença poética. Assim como em Encântaros o poeta lidava com a dor e o sofrimento como partes integrantes da vida, vendo que até a rosa "cresce assim tão lindamente / também chorou e enrubesceu também" , em Quintares o olhar sobre o passado é matizado por essa sabedoria: a alegria da lembrança é indissociável da consciência de que aquele tempo não voltará.

Em suma, Quintares é uma obra que, pela força da sugestão e da concisão, confirma a maturidade poética de Hamilton Faria. Ele nos convida a um exercício de escuta e de contemplação, mostrando que a verdadeira poesia telúrica não está na grandiloquência, mas na capacidade de encontrar o infinito no espaço finito de um quintal, e a eternidade no instante fugaz de uma lembrança de infância. É um livro para ler devagar, como quem não quer perder nenhum detalhe do crepúsculo.


Helder Moutinho, jornalista

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