quarta-feira, 24 de junho de 2026

RESENHA - Beijo, de Lamarão: a coreografia do instante e a febre do corpo no carnaval carioca




 

A poesia de Lamarão em Beijo (Vespeiro Edições, 2026) não se apresenta como um relato, mas como um flash – uma centelha de luz que captura, em sua brevidade, a intensidade avassaladora de uma paixão vivida no turbilhão do carnaval carioca. O livro, que se insere em uma tradição de uma poesia que investiga o corpo e suas pulsões, constrói uma lírica onde a pele é a principal superfície de inscrição e o tempo, o de um instante que se quer eterno. O que o poeta nos oferece é a dissecação de um afeto que não se fixa, mas se dança e se beija.

O "carnaval" em Beijo é mais que um cenário ou uma data no calendário; é a própria condição de possibilidade da experiência amorosa descrita. Na tradição poética que pensa a relação entre o corpo e a cidade, como sugere o crítico Celia Pedrosa ao falar de uma inquietação constitutiva da literatura moderna, Lamarão encontra no carnaval a metáfora perfeita para um amor que é, ao mesmo tempo, público e incrivelmente privado. A multidão anônima e a explosão de cores e ritmos tornam-se o fundo sobre o qual se destaca a singularidade de um olhar e de um beijo. A paixão é "tórrida" não apenas por sua intensidade, mas por ser filha do calor dos corpos em contato, da música que acelera o sangue e da noite que promete tudo.

Nesse contexto, a poética do corpo é o verdadeiro motor da obra. Lamarão não narra o beijo, ele o escreve com a precisão de quem tenta reproduzir sua textura, sua urgência e sua consequência. O corpo aqui não é um mero suporte da alma, mas o agente principal da comunicação e do conflito. Ele sente, deseja e, sobretudo, lembra. A "memória do corpo" parece ser o fio condutor, um arquivo de sensações que resiste ao esquecimento. Cada poema funciona como um estilhaço dessa memória, um instante congelado que busca recuperar a totalidade de um êxtase fugidio.

A construção poética de Lamarão, com seu foco no "flash cotidiano", opera como um contraponto à ideia de uma poesia que se quer monumental. Ao invés de narrativas extensas, ele opta por fragmentos de alta voltagem lírica. É a mesma inquietação de outros poetas contemporâneos que, como Omar Salomão, investigam as possibilidades do poético em um mundo saturado de imagens e informações . O "flash" é a unidade de medida do livro: um olhar roubado, o toque de uma mão, o gosto de um beijo. São esses pequenos, porém decisivos, eventos que compõem a geografia afetiva do eu-lírico.

Ao final, Beijo de Lamarão consolida-se como uma experiência de leitura que é, ela mesma, um convite à entrega. Sua força reside na capacidade de transformar o efêmero – um beijo de carnaval – em uma metáfora duradoura para a própria condição humana de buscar a comunhão, mesmo que por um instante, com o outro. O livro não oferece respostas sobre o amor, mas celebra a sua aparição súbita, avassaladora e, por isso mesmo, inesquecível. É um testemunho poético de que há uma verdade intensa e inegável no que é fugaz.

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